Design Visual e Mundo Limitado

Dosa Divas, novo lançamento do estúdio Outerloop Games, chega como um JRPG mais leve em comparação aos grandes títulos do gênero, como Final Fantasy ou Tales of. No entanto, ao tentar misturar elementos de culinária, cultura e narrativa familiar com uma pitada de ficção científica, o jogo acaba não entregando uma experiência memorável. Com uma trama envolvendo três irmãs e um robô de comida gigante, a proposta é ambiciosa, mas a execução deixa a desejar em vários aspectos. Desde a narrativa confusa até sistemas de combate e culinária frustrantes, Dosa Divas parece mais um prato mal temperado do que uma refeição saborosa.

A história acompanha Samara e Amani, duas irmãs que se reencontram após anos afastadas para viajar em um robô gigante chamado Goddess, capaz de produzir comidas. Seu objetivo é consertar os danos causados por Lina, a irmã mais nova, que comanda a corporação Linaworks e busca apagar tradições culinárias e identidades culturais. Ao longo da jornada, as irmãs enfrentam forças corporativas, cozinham para comunidades e tentam reconstruir laços familiares e culturais. O enredo tenta explorar temas profundos como memória, identidade e resistência, mas a narrativa oscila demais entre humor irreverente e momentos trágicos, sem encontrar um equilíbrio coerente.

Os personagens são outro ponto fraco. O lojista recorrente, por exemplo, usa insinuações e flerte de forma exagerada, o que soa mais desconfortável do que engraçado. Os robôs Diva, que ganham destaque na trama, também não têm suas personalidades bem desenvolvidas, deixando o jogador perdido em meio a ideias mal integradas. Até mesmo a atuação das vozes, que poderia dar profundidade às cenas, é prejudicada por um roteiro que não consegue transmitir emoções de forma consistente.

Design Visual e Mundo Limitado

O visual de Dosa Divas é carregado de personalidade, com personagens de membros exagerados e traços faciais incomuns, enquanto a paleta de cores ampla e contrastante dificulta a identificação de NPCs. Embora o estilo seja marcante, ele muitas vezes atrapalha o peso emocional que a história tenta transmitir. Os cenários também não ajudam muito: o jogador percorre lugares como uma vila em penhascos, um assentamento subterrâneo de raízes de árvores e uma região à beira de um lago, mas a falta de variedade e escala faz com que a exploração se torne repetitiva.

A movimentação com o Goddess, o robô das irmãs, é um dos pontos mais interessantes do jogo. À medida que a história avança, novas habilidades de locomoção são desbloqueadas, como um gancho e uma broca, que permitem acessar áreas anteriormente inacessíveis. No entanto, esses recursos muitas vezes apenas redirecionam o jogador para os mesmos locais, sem oferecer uma verdadeira sensação de descoberta. Mesmo com um roteiro relativamente curto, a falta de ambientes mais expansivos torna a jornada cansativa.

A música também não cumpre seu papel de enriquecer a atmosfera. Embora a trilha sonora comece com toques de identidade cultural, ela rapidamente se transforma em um looping de ritmos leves e guitarras dedilhadas que não conseguem capturar a essência dos lugares visitados. A dublagem, por sua vez, é irregular: enquanto algumas cenas têm atuações convincentes, outras soam desconexas, como se os personagens estivessem em um universo paralelo.

Combate em Turnos com Toques de Ação

O sistema de combate de Dosa Divas é um JRPG por turnos com elementos de QTE (Quick Time Events), onde o jogador deve acertar botões no momento certo para potencializar ataques e defesas. O jogo introduz um sistema de elementos baseado em sabores, como Picante, Doce e Azedo, que exploram fraquezas dos inimigos. Quando um inimigo tem sua defesa quebrada, ele entra no estado “Recheado”, tornando-se mais vulnerável a danos. As animações de ataque, como bolas de fogo ou reflexos de projéteis, são visualmente impressionantes, mas a jogabilidade logo se torna frustrante.

O principal problema são os QTEs obrigatórios, que não podem ser automatizados. Em dificuldade normal, errar um bloqueio ou um timing pode levar a consequências graves, como um game over rápido. A falta de clareza nos prompts e a ausência de feedback visual tornam os combates imprevisíveis, mesmo com preparação adequada. Embora inimigos corporativos da Linaworks tenham animações divertidas, grupos maiores de oponentes aumentam a dificuldade exponencialmente, especialmente quando combinados com mecânicas mal ajustadas.

Os chefes são outro ponto de tensão. Eles exigem não apenas a quebra de defesas e exploração de fraquezas, mas também inputs em tempo real mais complexos, como bloqueios de ataques inevitáveis e gerenciamento de recursos. A margem de erro é mínima, e a dependência de itens e comidas preparadas torna a batalha mais um teste de paciência do que de habilidade. Mesmo em modos mais fáceis, a frustração com os QTEs persiste, minando a diversão do combate.

Culinária como Mecânica e Progressão

Um dos elementos mais únicos de Dosa Divas é o sistema de culinária, onde os jogadores coletam ingredientes como bananas, peixes e temperos para preparar pratos em um mini-game dentro do Goddess. Essas refeições são usadas para cumprir pedidos de NPCs ou criar itens que melhoram estatísticas em batalha ou recuperam saúde. A execução do cozimento também depende de QTEs, como agitar sal ou girar o analógico para espalhar óleo em uma dosa, um tipo de panqueca indiana.

Embora a ideia de personalizar receitas seja interessante, a execução é repetitiva. Preparar a mesma comida várias vezes para missões ou itens se torna um trabalho chato, especialmente porque os QTEs, embora menos exigentes que os de combate, ainda são básicos. Por outro lado, o jogo faz um bom trabalho ao apresentar receitas inspiradas em pratos reais de dosa, o que pode ser educativo para jogadores menos familiarizados com a culinária indiana.

A progressão no jogo também está diretamente ligada ao afeto dos vilarejos, que pode ser aumentado destruindo propaganda da Linaworks, derrotando inimigos ou cozinhando para os moradores. Essas tarefas são praticamente obrigatórias, já que tanto habilidades poderosas quanto o avanço da história dependem delas. Infelizmente, a repetição do cozimento para cumprir objetivos se torna cansativa, especialmente porque o sistema de customização de personagens é quase inexistente: habilidades são desbloqueadas em pontos fixos e não podem ser modificadas.

Customização Superficial e Falta de Diversidade

Embora Dosa Divas ofereça alguma personalização cosmética, como skins para as partes do Goddess, ela é limitada e não afeta a jogabilidade. Os jogadores não podem ajustar habilidades ou equipamentos de forma significativa, o que torna o progresso linear e pouco envolvente. As missões paralelas também são escassas: além de coletar ingredientes e cumprir objetivos para aumentar o afeto dos vilarejos, a única outra atividade relevante é explorar novos caminhos com as habilidades do Goddess, que geralmente levam a caixas de sucata lendárias contendo melhorias.

A ausência de conteúdo extra faz com que a experiência seja curta demais para um JRPG, especialmente porque grande parte do tempo é gasta em sistemas repetitivos como cozinhar e combater. Até mesmo a exploração, que poderia ser um ponto forte com um mundo mais vasto, acaba se reduzindo a voltas em locais já conhecidos. A sensação de que o jogo não oferece muito além do essencial é constante, o que prejudica a imersão.

Recepção e Potencial Não Realizado

Apesar de suas falhas, Dosa Divas tem pontos que poderiam ser aproveitados em uma versão melhorada. A narrativa, embora mal executada, aborda temas relevantes como identidade cultural e resistência contra corporações que padronizam culturas. O sistema de elementos no combate, embora frustrante, é visualmente atraente, e a ideia de integrar culinária como mecânica central é inovadora. Além disso, o jogo oferece um vislumbre interessante sobre a culinária indiana, o que pode ser um atrativo para jogadores curiosos.

No entanto, os problemas de pacing, tom narrativo inconsistente e sistemas de jogo mal ajustados acabam ofuscando esses pontos positivos. A falta de profundidade na personalização e a repetitividade das tarefas tornam difícil recomendar Dosa Divas como um jogo memorável. Ele se assemelha mais a um lanche rápido do que a uma refeição substancial, oferecendo sabor em pequenos momentos, mas deixando uma sensação de insatisfação geral.

Se o estúdio Outerloop Games revisitar o projeto com um roteiro mais coeso, ajustes nos QTEs e um mundo mais explorável, Dosa Divas poderia se tornar uma experiência mais equilibrada. Até lá, o jogo permanece como um experimento interessante, mas imperfeito, que tenta agradar a vários públicos sem entregar plenamente em nenhum aspecto.

Conclusão: Vale a Pena Provar?

Dosa Divas é um jogo que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo: uma história familiar, uma crítica cultural, um JRPG de combate e um simulador de culinária. Infelizmente, essa ambição se traduz em uma experiência que não consegue agradar completamente. Os jogadores que buscam um desafio de combate estratégico podem ficar frustrados com os QTEs mal ajustados, enquanto aqueles interessados em uma narrativa profunda podem se decepcionar com o tom irregular e personagens mal desenvolvidos.

Os fãs de jogos de culinária ou culturas específicas podem encontrar algum valor na exploração das receitas e na ambientação, mas mesmo esses elementos são prejudicados pela repetição. O visual distinto e as animações divertidas dos inimigos são pontos altos, mas insuficientes para sustentar todo o jogo. Em resumo, Dosa Divas é um projeto que promete mais do que entrega, leaving jogadores com a impressão de que poderiam ter sido melhor aproveitados em outra receita.

Para aqueles que gostam de JRPGs mais leves e estão dispostos a tolerar suas falhas, Dosa Divas pode oferecer momentos agradáveis, especialmente se jogado em ritmo lento. No entanto, não é um título que ficará na memória por muito tempo. Como uma refeição experimental, ele tem seus momentos, mas não é uma refeição que você vai querer repetir.