# **Aerith Gainsborough: A perda que definiu uma geração**

Ah, os companheiros de RPG. De muitas maneiras, eles são os corações pulsantes desses jogos. Os membros do nosso grupo não apenas nos ancoram no papel de protagonista, mas também enriquecem a construção do mundo ao compartilhar suas próprias experiências e perspectivas de vida. São inúmeros personagens cativantes e incríveis espalhados por diversas séries, e tentar definir quais são os “melhores” seria uma tarefa inútil e completamente subjetiva. Não é isso que pretendo fazer aqui, tanto que evitei usar essa palavrinha no título.

Optei pelo termo “cativantes” porque meu critério principal não é avaliar quem é mais simpático ou mais amado pelo público. Garanto que já existem listas e fóruns suficientes sobre isso. Quero destacar personagens que podemos admirar não apenas como figuras, mas como dispositivos narrativos que utilizam o sistema de grupo do RPG com propósitos expressivos inovadores. Esses personagens não são apenas divertidos de interagir ou conversar; eles são componentes essenciais da narrativa de seus respectivos jogos.

Mas afinal, quem pode ser considerado um companheiro? Para simplificar, eles precisam estar no grupo em algum momento. Para ser considerado membro do grupo, esses personagens devem atender a pelo menos um desses critérios “oficiais” que me foram transmitidos pelo Deus dos Jogos: 1) seguem atrás do personagem principal como um cachorro treinado ou podem se fundir fisicamente a ele; 2) aparecem em telas de menu onde podem ser customizados de alguma forma. Ao cumprir um desses requisitos, temos um grupo de RPG.

Como tanto o uso quanto o desenvolvimento desses personagens são fundamentais para sua inclusão, alguns spoilers serão necessários nas análises abaixo. A lista está em ordem alfabética, o que me permite começar com Aerith, facilmente o exemplo mais emblemático do ponto que tento demonstrar com essas escolhas. Se você ainda não sabe, Aerith morre em Final Fantasy VII. Esse momento ocupa um lugar tão proeminente na história dos videogames e da cultura pop que a Square Enix baseou um jogo inteiro em fazer os jogadores questionarem se matariam ela novamente.

# **Aerith Gainsborough: A perda que definiu uma geração**

Encontrar Aerith depois que Cloud atravessa o teto de uma igreja é surreal, e não apenas por causa da provável lesão cerebral. Os modelos 3D em blocos de Final Fantasy VII podem ter envelhecido como leite azedo, mas a expressividade inovadora que a equipe extraiu deles ainda é palpável hoje. Os gestos brincalhões de Aerith — mãos atrás das costas e corpo inclinado para frente — dão uma quantidade surpreendente de vida ao modelo do personagem. A sequência que vai desde o encontro na igreja, passando pela conversa no parquinho abandonado, até o momento em que ela veste Cloud na Wall Market, abriu novas fronteiras para retratar companheiros mais como pessoas do que como ferramentas.

Mais adiante no jogo, Sephiroth a mata em uma cena cinematográfica inesquecível. E é só. Você a nivelou como membro regular do grupo porque gostava dela ou porque sua magia era eficaz? Azar o seu. Ela está morta agora. Dá vontade de ir atrás daquele louco de cabelo prateado, não é? Para piorar a dor, sempre que você acessa o inventário de uma loja dali em diante, vê um espaço vazio onde o retrato de Aerith costumava ficar. Isso faz com que o grupo se sinta incompleto pelo resto do jogo. Quem diria que uma interface de menu poderia refletir uma perda traumática assim?

A morte de Aerith não é apenas um evento narrativo; é uma ferida emocional que permanece aberta. O jogo nos faz sentir sua ausência de maneiras sutis, como quando precisamos lidar com a realidade de que, independentemente de nossas escolhas, alguns personagens simplesmente não estarão mais conosco. Essa abordagem revolucionária transformou Aerith em um ícone cultural, cuja sombra se estende até os dias atuais, com recriações e homenagens constantes na franquia.

Além disso, a morte de Aerith serve como um lembrete poderoso sobre o impacto que os jogos podem ter em nossas emoções. Ela nos ensina que, em RPGs, os personagens não são apenas peças descartáveis; eles são seres com os quais criamos laços profundos. Essa lição ressoa até hoje, influenciando jogos que buscam explorar temas semelhantes de perda e sacrifício.

Por fim, a cena da morte de Aerith é um testemunho do poder da narrativa nos videogames. Ela nos mostra que uma história bem contada pode nos afetar de maneiras que poucos outros meios conseguem. É por isso que Aerith permanece tão relevante, mesmo décadas após seu lançamento.

— ### **Bianca: O amor que transcende o tempo em Dragon Quest V**

Dragon Quest V inova ao apresentar uma narrativa que acompanha o protagonista desde a infância até a vida adulta, em uma estrutura inspirada no Bildungsroman. Os personagens entram e saem do grupo do Herói de maneiras que simulam os altos e baixos da vida. Bianca, por exemplo, tem praticamente a mesma idade do protagonista. Ela se junta ao grupo inicialmente como uma amiga de infância no primeiro ato, desaparece temporariamente e, no segundo ato, pode se tornar sua esposa e mãe de seus filhos, apenas para ser capturada pelo vilão no terceiro ato.

Isso aconteceu anos antes de os RPGs tornarem comum a possibilidade de se apaixonar por companheiros, é bom lembrar. Bianca é um modelo de como fazer os jogadores se envolverem romanticamente com personagens de videogame. Claro, Dragon Quest V oferece uma ou duas outras opções de interesse amoroso (dependendo da versão), mas vamos ser honestos: Bianca é claramente a escolha canônica e a mais gratificante narrativamente. Desculpe, fãs da Debora.

Muitas histórias de jogos ou de outros meios baseiam a motivação do protagonista em derrotar o vilão na captura de outro personagem (geralmente uma donzela em perigo), mas poucas dessas situações são tão bem desenvolvidas quanto a de Bianca. Ela é um personagem multifacetado com quem o jogador cresce e se apaixona, fazendo com que sua eventual captura se sinta urgente e real. A presença e ausência recorrentes de Bianca no grupo dão à história de Dragon Quest V o peso emocional pessoal que a torna revolucionária para sua época e um destaque até hoje.

A jornada de Bianca é um testemunho do poder da narrativa em RPGs. Ela nos mostra que os personagens não precisam ser apenas figuras secundárias; eles podem ser protagonistas de suas próprias histórias, mesmo dentro de um enredo maior. Isso é especialmente verdadeiro em Dragon Quest V, onde a vida do Herói é tão influenciada por suas escolhas quanto por seus encontros com Bianca.

Além disso, a relação entre Bianca e o Herói é um exemplo perfeito de como os jogos podem explorar temas universais, como amor, perda e redenção. Esses temas são atemporais e ressoam com jogadores de todas as idades e origens, tornando Bianca um personagem memorável e cativante.

Por fim, a história de Bianca também nos lembra da importância da diversidade nos RPGs. Ela é uma personagem feminina forte e independente, que não se limita a ser um objeto de desejo ou uma donzela em perigo. Em vez disso, ela é uma pessoa com suas próprias ambições, medos e desejos, o que a torna muito mais interessante e realista.

— ### **Boney: A lealdade que cura em Mother 3**

Parece que todo jogo hoje em dia grita para seu público que inclui um cachorro para acariciar. Tudo bem, todo coração quente derrete ao ver um bom menino ou menina. Ainda assim, essas representações e interações são apenas integrações superficiais do que realmente significa ter um companheiro canino amado na vida. Boney, por outro lado, é o verdadeiro negócio.

Mother 3 começa com capítulos que abrangem vários anos e alternam entre múltiplos protagonistas. Boney está lá, acompanhando tanto Flint quanto seu filho Lucas, desempenhando o papel de seu animal de estimação resiliente e obediente. As vidas de Flint e Lucas podem ser marcadas por perdas trágicas na família, mas em seus momentos mais frágeis, Boney está presente, seja sentado pacientemente em sua casinha esperando por uma aventura ou lutando ao lado deles. É um testemunho da estabilidade e cura que um animal de estimação pode proporcionar diante de uma tragédia familiar.

Makes sense that our fluffy sidekick wouldn’t be as offensively capable as his human teammates, but there’s subtly wonderful characterization in making him an essential part of the team nonetheless. Boney has been trained to be the best boy through clutch item usage. He frees the rest of the team to focus more on their unique talents by doing what a dog does best: support and love those who love him. We love you too, Boney.

Boney representa um tipo diferente de companheiro nos RPGs: aquele que não luta com espadas ou lança feitiços, mas que oferece algo igualmente valioso — companheirismo e apoio emocional. Sua presença constante ao longo do jogo nos lembra que, às vezes, os laços mais fortes não são formados em batalhas épicas, mas em momentos de vulnerabilidade e perda.

Além disso, Boney é um exemplo perfeito de como os jogos podem explorar temas universais, como luto e resiliência. Sua relação com os protagonistas principais nos mostra que, mesmo em tempos de escuridão, há espaço para esperança e cura. Isso é especialmente verdadeiro em Mother 3, onde a história é permeada por momentos de profunda tristeza e perda.

Por fim, Boney também nos lembra da importância dos animais de estimação em nossas vidas. Eles são mais do que apenas companheiros; eles são membros da família, capazes de nos oferecer amor incondicional e apoio inabalável. Essa mensagem ressoa com jogadores de todas as idades e origens, tornando Boney um personagem tão amado e memorável.

— ### **Ignis: O mentor que vai além do esperado em Final Fantasy XV**

Nunca me senti tão bem cuidado por um companheiro quanto por Ignis. Como jogadores de RPG, estamos acostumados a ser os provedores — nossos companheiros geralmente não conseguem nem trocar de chapéu ou sapatos sem que lhes digamos o que fazer. Em Final Fantasy XV, o personagem mais mimado é o nosso — o jovem príncipe Noctis. Por conta própria, ele seria um desastre. Graças ao Ignis, todas as responsabilidades adultas são cuidadas por ele.

Curta o privilégio de ser uma “princesa passageira”, ouvindo clássicos do Final Fantasy enquanto Ignis te leva por aí em seu carro esportivo real. Melhor ainda, ele até cozinha refeições de sua escolha a partir de um menu francamente delicioso de opções. Sente-se bem em ser da realeza.

Caso você tenha dado como garantido tudo o que Ignis faz por você, o jogo faz questão de mostrar como você dependia dele quando ele é cegado na reta final. O capítulo mais memorável envolve trabalhar seu caminho por um nível em que o Ignis ferido mal consegue acompanhar o resto do grupo. Qualquer alma grata vai passar pelo nível com paciência para que ele não fique para trás e manter a boca fechada quando sua única opção para o jantar for comida enlatada.

O jogo constrói brilhantemente Ignis como o principal cuidador de Noctis, só para fazer você sentir tão tangivelmente quando isso não é mais possível. A obra sabe que a melhor maneira de o jogador sentir Noctis amadurecendo é quando ele não precisa mais depender de seus companheiros tão brilhantemente integrados.

Ignis é um exemplo perfeito de como os RPGs podem explorar temas de dependência e independência. Sua relação com Noctis nos mostra que, embora o apoio dos outros seja valioso, também é importante aprender a cuidar de si mesmo. Essa mensagem ressoa com jogadores de todas as idades e origens, tornando Ignis um personagem tão cativante e memorável.

Além disso, Ignis também nos lembra da importância da amizade e da lealdade. Sua dedicação inabalável a Noctis, mesmo diante de suas próprias limitações, é um testemunho do poder dos laços humanos. Essa mensagem é especialmente relevante em um mundo onde a independência é muitas vezes valorizada acima de tudo.

Por fim, Ignis também nos mostra que, mesmo em tempos de escuridão, há espaço para esperança e redenção. Sua relação com Noctis nos lembra que, embora possamos enfrentar desafios e perdas, sempre há pessoas dispostas a nos apoiar e nos ajudar a superar nossos medos.