Caixa de trilha de Aretha completa 35 anos

Os fãs da franquia Aretha são raros, mas dedicados. Não, não estamos falando de Aretha Franklin, a lendária cantora norte-americana, mas sim da série de três jogos de RPG para Game Boy (e, posteriormente, uma trilogia para Super Famicom) desenvolvida pela pequena equipe Japan Art Media. Por décadas, o conhecimento sobre esses jogos permaneceu restrito a um álbum arranjado lançado para o título Aretha: The Shining Land no Super Nintendo. A existência da trilogia original para Game Boy só veio à tona em 2019, graças às excelentes análises de Daniel Todd no portal Hardcore Gaming 101. Esses artigos despertaram minha curiosidade: afinal, os RPGs para Game Boy, quando bem executados, são experiências únicas e memoráveis.

A estética visual de Aretha lembrava em muito os títulos da série SaGa (Final Fantasy Legend), também para Game Boy, o que só aumentou meu interesse. No entanto, com o tempo, a vida tomou conta, a pandemia de COVID-19 abalou o mundo e, mais uma vez, Aretha saiu da minha mente. Até que, em meados de 2025, tudo mudou. A editora especializada Cassetron decidiu lançar a trilha sonora completa da trilogia original de Aretha para Game Boy, disponibilizando pela primeira vez ao público os arquivos de áudio em chiptune. A notícia foi empolgante e soou como um sopro de ar fresco para os fãs do gênero.

Porém, a empolgação inicial deu lugar a certa decepção quando, semanas antes de receber a Caixa de Trilha de Aretha 35º Aniversário, tive a oportunidade de jogar Infinity, um revitalizado RPG para Game Boy Color. Sua trilha sonora em 8 bits foi simplesmente incrível, explorando ao máximo as capacidades do console, inclusive com técnicas de panorâmica estéreo — uma vantagem do Game Boy em relação ao hardware do NES. Na avaliação da OST de Infinity, destaquei como foi gratificante ouvir um jogo aproveitar ao máximo o dispositivo, alcançando um patamar próximo aos trabalhos lendários de Nobuo Uematsu e Kenji Ito em Final Fantasy Legend e Final Fantasy Adventure (respectivamente, da série SaGa e Mana). Além disso, mencionei que a trilha de Infinity superava muitas outras do mesmo estilo para Game Boy.

Infelizmente, ao comparar as três trilhas sonoras de Aretha com a de Infinity, a diferença é nítida. Enquanto Infinity demonstra um cuidado excepcional na produção, as trilhas de Aretha soam extremamente básicas e rudimentares. A apresentação é limitada, com pouquíssimo esforço para explorar os efeitos avançados do chip sonoro do Game Boy, que permitia até três canais de áudio simultâneos. Na maioria das vezes, as músicas lembram as trilhas simplistas e, por vezes, preguiçosas que as produtoras licenciadas faziam para jogos de NES. Você sabe do que estou falando: aquele tema orquestral mal adaptado para o chip de som do console, como o tema de abertura dos Simpsons de Danny Elfman “reduzido” para NES ou Game Boy. Quando bem feito, poderia ser incrível, mas infelizmente não é o caso aqui.

A Caixa de Trilha de Aretha 35º Aniversário é composta por três discos, cada um contendo as faixas das respectivas partes da série: Aretha (1990), Aretha II (1993) e Aretha III (1994). O primeiro disco, com 20 faixas e 36 minutos e 58 segundos de duração, traz desde a abertura icônica até temas de batalha, vitória e até uma faixa de “má notícia”. O segundo disco, com 34 faixas e 52 minutos e 36 segundos, expande o repertório com temas de exploração, batalhas alternativas e até uma música de balada triste. Já o terceiro disco, com 29 faixas e 47 minutos e 54 segundos, inclui desde temas de lojas e casas até composições mais dramáticas, como a faixa Woe (“Dor”) e um megamix comemorativo dos 35 anos.

Ao analisar as faixas individualmente, é possível perceber que muitas delas se repetem com pequenas variações entre os discos. Por exemplo, o tema de batalha padrão aparece em diferentes versões, assim como os temas de vitória e de finalização de jogo. Essa repetição pode soar monótona para quem espera variedade, mas também serve como um lembrete de que, em jogos da década de 1990, a música tinha um papel mais funcional do que artístico. Em vez de criar experiências imersivas, as trilhas de Aretha serviam principalmente para marcar eventos no jogo: batalhas, exploração, momentos felizes ou tristes.

Outro ponto que chama a atenção é a falta de identidade sonora. Enquanto jogos como Final Fantasy ou Mana desenvolveram estilos musicais próprios e reconhecíveis, Aretha parece flertar com diversos gêneros sem se firmar em nenhum. Há momentos que lembram trilhas de RPGs ocidentais, outros que soam como música ambiental e até tentativas de temas orquestrais, mas tudo fica aquém do esperado. A falta de coesão faz com que a experiência de ouvir a trilha seja mais técnica do que emocional, o que pode decepcionar fãs de música de jogos mais elaborados.

Mesmo assim, a Caixa de Trilha de Aretha 35º Aniversário tem seu valor para colecionadores e estudiosos do gênero. A iniciativa da Cassetron de resgatar obras esquecidas é louvável, e a qualidade da produção física do material —