Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha
Uma celebração musical que resgata a memória de um clássico obscuro dos RPGs de Game Boy: a trilogia Aretha, lançada pela Japan Art Media, ganha agora uma edição especial comemorativa de 35 anos. Composta por três discos que reúnem as trilhas sonoras originais dos jogos de Game Boy e Super Famicom, a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha chega ao mercado pela mãos da Cassetron, selo especializado em relançamentos de áudio de jogos retrô. O material, que inclui não apenas as faixas dos três títulos da série principal, mas também um megamix inédito, representa uma oportunidade única para fãs de música chiptune e curiosos sobre a história dos RPGs portáteis.
A série Aretha, embora pouco conhecida fora do Japão, desempenha um papel curioso na história dos RPGs de Game Boy. Seu estilo visual, que lembra fortemente os jogos da série SaGa (Final Fantasy Legend), e sua mecânica de batalha inovadora para a época, tornam-na um objeto de estudo interessante para entusiastas do gênero. A trilha sonora, no entanto, sempre foi vista como um ponto fraco da franquia. Os fãs mais dedicados, que cresceram ouvindo chiptunes do console, podem encontrar nesta caixa uma chance de revisitar — ou, para muitos, descobrir pela primeira vez — as melodias que acompanharam as aventuras de Materia, protagonista da série. Mas será que as trilhas de Aretha realmente merecem esse resgate? Ou serão apenas mais um exemplo de como a limitação técnica do Game Boy pode se transformar em um obstáculo criativo?
O primeiro disco da coleção traz a trilha sonora do jogo original, lançado em 1990. Composto inteiramente por Tsuyoshi Tanaka, o álbum é um reflexo da simplicidade — e, em alguns momentos, da falta de ambição — dos primeiros RPGs portáteis. As faixas, embora tecnicamente corretas, carecem de profundidade: são melodias diretas, com pouca variação rítmica e quase nenhuma experimentação com os recursos limitados do hardware. O tema de abertura, “JAM OPENING”, é um bom exemplo disso: uma introdução que não promete nada além de um passeio sonoro trivial. Já o “PROLOGUE” tenta criar um clima mais dramático, mas acaba soando como um esboço mal executado de uma música que poderia ter sido épica. Até mesmo o tema de batalha, “ASSAULT”, que poderia ser um ponto alto, se resume a uma sequência repetitiva de notas que mal explora o potencial do chip de som do Game Boy.
A faixa “LEISURE”, tema da cidade central Halo-halo, é um caso à parte. Com um ritmo que lembra vagamente uma valsa, a música tenta transmitir um clima de tranquilidade, mas acaba soando enjoativa e monótona. É como se Tanaka tivesse optado por uma abordagem minimalista não por escolha artística, mas por falta de ideias. A única exceção notável é “PANTHEON”, tema do castelo final que leva o nome do antagonista Howard. Aqui, há um esforço um pouco maior em criar uma melodia mais trabalhada, ainda que dentro das limitações do sistema. No entanto, mesmo essa faixa não consegue esconder a fragilidade da composição original. O disco fecha com um vídeo promocional do jogo, uma relíquia nostálgica que, infelizmente, não traz consigo o áudio original, deixando os fãs curiosos sobre o que poderia ter sido uma apresentação mais dinâmica.
O segundo disco da caixa traz a trilha de Aretha II, lançado em 1993. Desta vez, a composição é assinada por Kazuyasu Hiroe em parceria com Tanaka, embora os créditos não detalhem quem escreveu cada faixa. Aqui, já se percebe uma melhora significativa na qualidade geral. As melodias são mais cativantes, e há uma tentativa — ainda que tímida — de explorar os recursos do Game Boy, como o uso de panning e efeitos de vibrato. O tema de abertura, por exemplo, é uma versão aprimorada do original, com uma camada adicional de instrumentos que dão mais corpo à música. As faixas de batalha também ganham destaque, especialmente “KINKED”, que apresenta um ritmo mais acelerado e uma linha de baixo que se destaca.
Um dos pontos altos do segundo disco é a trilogia de temas ambientados em diferentes superfícies do mundo de Aretha: “FOUND”, “CRADRE” (provavelmente uma variação de “Cradle”) e “LEISURE” (novamente, a música da cidade). Cada uma dessas faixas traz uma identidade própria, ainda que todas compartilhem a mesma estrutura básica de melodia e acompanhamento. “CRADRE”, em particular, chama a atenção por seu ritmo irregular, que tenta capturar a sensação de um ambiente misterioso e desconhecido. Já “MY HEART”, tema de tristeza, é uma das poucas faixas que consegue transmitir emoção de forma efetiva, graças a uma melodia simples, mas tocante.
O terceiro disco, dedicado a Arethas III (1995), é o mais ambicioso dos três. Com quatro compositores creditados — incluindo Tanaka e Hiroe —, este álbum representa a maturidade da trilha sonora da série. Há uma maior diversidade de estilos, com faixas que vão do melancólico (“WOE”) ao épico (“PALACE”). O tema de abertura, “UNVEIL”, é uma introdução grandiosa que imediatamente coloca o ouvinte em um clima de aventura. Já “ORIGIN”, faixa final do jogo, é uma das poucas que realmente faz jus ao potencial do Game Boy, com mudanças de oscilação e uma estrutura que lembra uma peça sinfônica em miniatura.
A grande novidade deste terceiro disco é o megamix comemorativo dos 35 anos, uma montagem de seis minutos que amarra os principais temas da série. Criado pelo próprio criador da franquia, Mitsuru Takahashi, a faixa não chega a ser uma obra-prima, mas cumpre seu papel de resumir a trajetória musical de Aretha. Curiosamente, este megamix é a única faixa da caixa disponível no YouTube, o que levanta a hipótese de que Takahashi o tenha produzido também com fins promocionais. Embora não seja uma grande inovação, o megamix serve como um lembrete nostálgico para os fãs de longa data e uma porta de entrada para quem ainda não conhece a série.
Do ponto de vista técnico, a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha é um produto bem executado. A masterização do áudio é limpa, sem distorções, e os temas são apresentados na íntegra, sem cortes ou edições desnecessárias. Os encartes, embora breves, incluem informações relevantes sobre os jogos e os compositores, além de uma nota do próprio Takahashi sobre o processo criativo por trás do megamix. Para colecionadores e fãs de chiptune, este lançamento é uma adição valiosa, ainda que não seja uma obra-prima do gênero. Afinal, não são todos os dias que temos a chance de ouvir — ou redescobrir — trilhas sonoras de jogos que, por décadas, estiveram relegados ao esquecimento.
No entanto, é importante colocar a trilha de Aretha em perspectiva. Comparada a outros clássicos do Game Boy, como as obras de Nobuo Uematsu para Final Fantasy Adventure ou Kenji Ito para Final Fantasy Legend, a música de Aretha parece tímida e pouco inspirada. Os jogos da série SaGa, por exemplo, são conhecidos por suas trilhas que, embora limitadas pela tecnologia, conseguem transmitir emoção e personalidade. Em Aretha, a falta de ambição fica evidente em faixas como “DELIGHT”, que tenta ser alegre, mas acaba soando forçada e repetitiva. Até mesmo os temas de batalha, que geralmente são os pontos altos de qualquer RPG, não conseguem se destacar.
Outro aspecto que merece atenção é a ausência de arranjos mais elaborados. Enquanto muitos relançamentos de trilhas sonoras de games incluem versões alternativas, remixes ou orquestrações, a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha se contenta com as faixas originais, sem nenhum material bônus. Isso pode decepcionar os fãs que esperavam ouvir versões atualizadas ou performances ao vivo, como aconteceu com outros lançamentos semelhantes. A única exceção é o megamix, que, embora interessante, não chega a ser um substituto para arranjos mais profundos.
Para quem é fã da série Aretha ou simplesmente gosta de explorar a história dos RPGs portáteis, esta caixa é uma aquisição interessante. Afinal, trata-se de um documento histórico que preserva a memória de uma franquia que, de outra forma, poderia cair no completo esquecimento. Os jogos em si são curiosidades do passado, com mecânicas de batalha inovadoras para a época e um estilo visual que dialoga diretamente com os títulos da SaGa. As trilhas sonoras, por sua vez, são um reflexo das limitações técnicas da época, mas também da falta de ambição de seus compositores. Ainda assim, há momentos de beleza escondidos em meio à simplicidade, como em “ORIGIN”, que consegue transmitir uma sensação de encerramento épico.
Ainda assim, é difícil recomendar a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha como uma compra obrigatória, mesmo para os mais apaixonados por chiptune. Comparada a outras caixas de trilhas sonoras lançadas recentemente — como as de EarthBound ou Chrono Trigger —, o material aqui apresentado parece modesto demais. Não há arranjos, não há faixas inéditas, e as composições originais, embora nostálgicas, não são exatamente memoráveis. Para os fãs de Aretha, no entanto, este lançamento é uma chance de reviver a magia dos jogos de Game Boy e de celebrar uma franquia que, apesar de seus defeitos, fez parte da história dos RPGs portáteis.
Uma questão que fica no ar é: por que a Japan Art Media não investiu em uma trilha sonora mais ambiciosa para a série Aretha? Afinal, à época do lançamento dos jogos, já existiam exemplos de como extrair o máximo do chip de som do Game Boy. Jogos como Pokémon e The Legend of Zelda: Link’s Awakening provaram que era possível criar trilhas memoráveis mesmo dentro das limitações do hardware. Talvez a equipe de desenvolvimento estivesse mais focada em outros aspectos do jogo, como o sistema de batalha ou a narrativa, e a música tenha ficado em segundo plano. Ou talvez a falta de recursos financeiros tenha impedido investimentos maiores no áudio.
Outro ponto a se considerar é o contexto histórico. Os anos 1990 foram uma época de transição para os RPGs portáteis. Enquanto os consoles de mesa como o Super Nintendo já exploravam sons mais ricos e complexos, os jogos de Game Boy ainda estavam descobrindo seu potencial. Trilhas como as de Final Fantasy VI ou Chrono Trigger, compostas por Nobuo Uematsu, mostraram que era possível criar experiências musicais profundas mesmo em 8 bits. Em contrapartida, a série Aretha optou por uma abordagem mais conservadora, priorizando a simplicidade em detrimento da inovação. Isso não a torna ruim, mas certamente a coloca em um patamar abaixo dos grandes clássicos do gênero.
Para os colecionadores, a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha é uma peça interessante, ainda que não indispensável. Os três discos oferecem uma visão completa da evolução — ou falta dela — da trilha sonora da série ao longo de seus três jogos. O megamix, embora não seja revolucionário, é um toque especial que homenageia os fãs de longa data. Já para os ouvintes casuais, o material pode soar repetitivo e monótono, especialmente quando comparado a outras trilhas de Game Boy que seguem em catálogo até hoje.
Se há algum consolo para os fãs da série, é saber que a Japan Art Media finalmente se preocupou em preservar a história de Aretha. Em um mercado dominado por relançamentos de franquias famosas, é louvável que uma equipe pequena tenha recebido a atenção merecida, ainda que tardiamente. Quem sabe, no futuro, não vejamos um relançamento semelhante para os jogos de Super Famicom da série? Afinal, os títulos para o console 16 bits da Nintendo também merecem ser redescobertos, e suas trilhas sonoras — que provavelmente são mais elaboradas — poderiam render uma caixa ainda mais impressionante.
Por enquanto, a Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha permanece como um documento histórico, um registro do passado que pode não empolgar a todos, mas que certamente tem seu valor. Para os fãs da série, é uma chance de reviver memórias. Para os entusiastas de chiptune, é mais uma peça no quebra-cabeça da música de games. E para quem simplesmente gosta de explorar o desconhecido, é uma oportunidade de descobrir — ou redescobrir — um capítulo esquecido da história dos RPGs. Afinal, como diz o ditado, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E, nesse caso, até mesmo as trilhas sonoras mais simples podem ter seu charme.
A Caixa de Trilhas Sonoras 35 Anos de Aretha é mais um exemplo de como a música dos games pode ser um portal para o passado. Mesmo que as composições não sejam as mais sofisticadas, elas carregam consigo a essência de uma época em que os desenvolvedores tinham que inovar não com recursos, mas com criatividade. E, nesse sentido, a série Aretha — e sua trilha sonora — merecem ser lembradas, ainda que apenas como um pequeno elo em uma corrente maior da história dos videogames.
Para encerrar, fica a reflexão: será que, no futuro, teremos mais relançamentos como este? Trilhas sonoras de jogos obscuros que, por algum milagre, são resgatadas do esquecimento e ganham nova vida nas mãos de colecionadores e fãs? Só o tempo dirá. Por enquanto, quem adquirir a caixa terá em mãos não apenas um pedaço de história, mas também a chance de ouvir — ou reouvir — as melodias que acompanharam as aventuras de Materia em um mundo fantástico chamado Aretha.