Fishbowl: Um jogo que acerta ao tratar de luto e trauma
Fishbowl é um jogo que aborda de forma exemplar temas profundos como trauma, luto e arrependimento, e está entre os melhores a fazer isso no universo dos games. Com o passar dos anos, percebi como o luto pode ser, de certa forma, engraçado — não no sentido literal, mas na sua estranha capacidade de se manifestar nos momentos mais inesperados. Você pode estar tranquilamente assistindo a uma série ou trabalhando em algo rotineiro quando, de repente, um pensamento invade sua mente: “Nunca mais vou assistir isso com meu pai”. Não importa quanto tempo tenha passado; o tempo pode até ajudar a amenizar a dor, mas o luto tem um jeito peculiar de aparecer quando você menos espera. Fishbowl captura essa essência de forma brilhante, transformando uma experiência dolorosa em uma narrativa envolvente e emocionalmente poderosa.
O jogo acompanha Alo, uma jovem mulher indiana que vive longe de casa e enfrenta a perda recente de sua avó, Jaja. Essa dor afeta profundamente sua rotina, somando-se a outros desafios, como a sensação de estar sempre em dívida no trabalho e a dificuldade de retomar a paixão pela poesia. Levantar da cama todas as manhãs já é um esforço considerável para ela. Enquanto se muda para seu novo apartamento, Alo passa o mês seguinte desempacotando, aos poucos, os pertences de Jaja. A cada caixa aberta, o jogador resolve um simples quebra-cabeça de deslizar peças para revelar os objetos, além de registrar em um diário suas memórias sobre cada item. Entre essas lembranças, um brinquedo em formato de peixe dentro de um aquário começa a conversar com Alo, tentando guiá-la para recordar momentos felizes — embora, como qualquer pessoa que já passou por uma perda, ela saiba que as memórias felizes também podem ser as mais dolorosas.
Embora a morte da avó seja o foco principal do luto de Alo, outros problemas agravam ainda mais sua situação. Um deles é a insegurança em relação à sua capacidade no emprego, e outro é o contexto da pandemia de COVID-19, que no jogo se manifesta como uma realidade onde o distanciamento social é constante. Assim como Alo, muitos de nós enfrentamos nossos piores momentos durante o pico das restrições causadas pela pandemia. Não há companhia pior para o luto do que nossos próprios pensamentos invasivos, que parecem multiplicar-se justamente quando mais precisamos de apoio. O jogo ainda aborda outro aspecto doloroso da pandemia: a falta de recursos para o ensino remoto. Em uma cena, um personagem menciona a triste realidade de crianças em sua cidade que não tinham acesso a tecnologia para acompanhar as aulas online — um problema muito real na Índia durante os lockdowns. É raro ver a COVID-19 retratada de forma tão sensível em jogos eletrônicos, e Fishbowl faz isso com maestria.
Uma das coisas que mais me impressionou em Fishbowl é o compromisso com a diversidade tanto em seu conteúdo quanto em sua equipe de desenvolvimento. É incrivelmente raro encontrar um jogo que foque pessoas indianas e sua cultura com tanta autenticidade, e o título não se limita apenas a isso: ele também apresenta personagens com características distintas, como uma pessoa com vitiligo. Como alguém que convive com essa condição, ver sua representação normalizada na mídia é extremamente gratificante. Além disso, o jogo traz uma narrativa rica em diálogos, personagens e uma trama bem construída, tudo isso desenvolvido por uma equipe de apenas duas pessoas. Eles conseguiram transformar uma experiência predominantemente narrativa em um jogo interativo, adicionando mecânicas que exigem a participação ativa do jogador.
Muitas ações no jogo são acompanhadas por eventos de tempo rápido. Por exemplo, ao escovar os dentes, o jogador precisa segurar um botão para aplicar a pasta, mover a escova em um movimento de vai-e-vem (esquerda-direita-esquerda-direita) e depois em um padrão vertical (cima-baixo-cima-baixo). Outras tarefas exigem sequências de inputs mais complexas. A cada dia, Alo realiza atividades para tentar melhorar seu humor, como escovar os dentes, tomar banho, beber água e se alimentar. Também é possível deixá-la maratonar séries ou rolar infinitamente o feed das redes sociais, embora essas opções pareçam ter apenas efeitos negativos — aliás, não vejo motivo para escolher essas ações, a menos que você queira que ela se sinta pior! Mesmo assim, continuo incentivando Alo a escrever todos os dias, mesmo sabendo que isso pode piorar seu ânimo. Se ela nunca mais voltar a sentir prazer na escrita, ainda assim me sentiria culpado se não tentasse reacender essa chama dentro dela.
Além do autocuidado, Alo tem um emprego como editora de vídeos, e a cada dia de trabalho ela precisa editar pelo menos um vlog. Essa tarefa é apresentada como um mini-jogo onde o jogador deve classificar elementos em categorias enquanto eles se aproximam na tela. Embora não seja mecanicamente empolgante, a atividade consegue envolver o jogador na rotina profissional de Alo. O único ponto negativo é o controle um pouco rígido, que pode levar a erros frustrantes — mesmo que a narrativa não seja tão rigorosa com esses deslizes. Alo também mantém contato com várias pessoas por chamadas de vídeo, incluindo sua mãe, amigos de infância e colegas de trabalho. Essas interações podem tanto melhorar quanto piorar seu estado emocional. Gostei muito dessas cenas, pois elas mostram como Alo se relaciona com as diferentes pessoas em sua vida. Sua conexão com a mãe, em particular, é tocante, com um amor mútuo evidente em cada diálogo.
Apesar de todo o meu apreço pelo jogo, Fishbowl acaba se tornando longo demais. Embora nunca tenha me cansado da história ou dos personagens, a rotina de Alo acaba se tornando tediosa — talvez isso seja proposital. Inicialmente, questionei qual era o desafio real do jogo, já que as tarefas não eram difíceis nem demoradas. No entanto, como na vida real, a dificuldade muitas vezes não está na complexidade da tarefa, mas na falta de motivação para realizá-la. Com o passar do tempo, mais atividades são introduzidas, o que só aumenta a sensação de repetição. Curiosamente, não há punições se Alo pular o banho quando seu ânimo já estiver elevado, o que talvez demonstre o quanto me apeguei ao personagem — afinal, mesmo assim eu fazia com que ela cumprisse suas rotinas.
Em termos de apresentação, Fishbowl tem um visual aconchegante e colorido, uma estética que parece representar visualmente a máscara que as pessoas usam para se adaptar ao mundo ao redor — um mecanismo de defesa comum para quem lida com depressão. As manifestações da depressão de Alo aparecem em pesadelos em tons de cinza ou na escuridão que se infiltra no ambiente, contrastando com a fachada que ela apresenta ao mundo. A trilha sonora também reflete o estado emocional da protagonista, com batidas suaves e melodias melancólicas que evocam uma sensação de nostalgia e tristeza. Jogar Fishbowl trouxe à tona memórias desconfortáveis, mas, ao final, senti gratidão por ter vivenciado essa experiência. O jogo me lembrou muito do excelente visual novel “To the Moon”, uma história emocionalmente intensa sobre lidar com perdas e arrependimentos. Enquanto “To the Moon” me tocou em um momento em que eu temia pela morte de meu pai, Fishbowl ressoa comigo agora, enquanto tento aceitar essa perda.
Fico impressionado com o fato de dois desenvolvedores iniciantes terem criado um jogo tão bom, especialmente em meio a uma pandemia. Espero que mais títulos como esse surjam no futuro. Fishbowl merece elogios por sua representação autêntica de trauma e luto, um elenco diversificado e bem escrito, mini-jogos fofos, designs de personagens agradáveis e uma rara representação da cultura indiana. Por outro lado, as mecânicas de autocuidado podem se tornar tediosas com o tempo, e o mini-jogo de edição de vídeo pode ser um pouco instável. Ainda assim, trata-se de um forte lançamento de estreia, com um elenco cativante e uma jornada comovente pela dor de uma jovem mulher. Fishbowl não é apenas um jogo; é uma experiência que nos convida a refletir sobre nossas próprias dores e como lidamos com elas.