Jornais usam nomes de repórteres em textos gerados por IA sem permissão
Um novo sistema de inteligência artificial está gerando polêmica nos jornais do grupo McClatchy, onde editores estão substituindo partes de reportagens humanas por conteúdos produzidos automaticamente, mas mantendo os nomes dos jornalistas nos créditos. Segundo reportagem do *TheWrap*, a ferramenta chamada *Content Scaling Agent* (CSA) — baseada na IA Claude — está sendo implantada em redações sem o consentimento explícito de todos os profissionais. Em alguns casos, matérias inteiramente geradas pela IA são creditadas a repórteres humanos, o que tem gerado insatisfação entre sindicatos e profissionais da imprensa.
O CSA funciona como um “parceiro de escrita”, responsável por adaptar conteúdos para diferentes públicos e formatos. Imagine um editor aumentando ou diminuindo a resolução de uma imagem, mas aplicado a textos: a ferramenta cria resumos, versões personalizadas e até mesmo substitui partes de reportagens originais. Em um exemplo citado pelo *TheWrap*, a edição da Pensilvânia *Centre Daily Times* publicou um texto com a seguinte autoria: “Reportagem por [nome omitido]. Produzido com auxílio de IA.” O artigo, com menos de 200 palavras, vinha seguido de tópicos em bullet points e incluía um link para a versão completa, escrita por um humano — um texto de quase 1.200 palavras com seis gráficos.
A situação varia entre os jornais do grupo. Enquanto o *Centre Daily Times*, não sindicalizado, mantém o nome do repórter no crédito, o *Sacramento Bee*, sindicalizado, optou por omitir completamente o autor, usando apenas “Editado por [nome do editor]. Texto produzido com auxílio de IA”. Já o *Miami Herald*, também sindicalizado, adotou uma fórmula diferente: “Produzido com IA, com base em trabalho original de [nome do repórter]”. Essa abordagem sugere que a empresa está usando o nome do jornalista sem deixar claro que o conteúdo principal foi gerado pela máquina.
As práticas da McClatchy foram questionadas em reuniões internas e, segundo o *TheWrap*, sindicatos dos jornais *Miami Herald*, *Sacramento Bee* e *Kansas City Star* já protocolaram reclamações formais. As sindicâncias alegam que a implementação do CSA violou cláusulas contratuais que exigem notificação prévia dos funcionários antes de mudanças tecnológicas significativas. Em uma reunião citada pela reportagem, Kathy Vetter, chefe de redação local da empresa, teria afirmado que, se os contratos não permitirem a remoção do nome do repórter, a McClatchy usará o nome do profissional mesmo em textos gerados por IA.
Apesar dos protestos, a empresa ainda não se manifestou publicamente sobre o caso. A reportagem tentou contato com a McClatchy na terça-feira, mas até o fechamento deste texto não obteve resposta. Até que haja uma posição oficial, a polêmica continua: até que ponto é ético usar o nome de um jornalista para validar conteúdos que ele não escreveu? Especialistas em ética jornalística já começam a debater os riscos dessa prática, que pode minar a confiança do público na imprensa.
O episódio levanta questões maiores sobre o futuro do jornalismo em tempos de IA. Se por um lado a automação pode agilizar a produção de notícias — especialmente em conteúdos padronizados como esportes, clima ou finanças —, por outro, o uso indevido de credenciais humanas levanta dúvidas sobre transparência e responsabilidade. Afinal, quem responde por um erro em um texto gerado por IA mas creditado a um repórter? E como o público pode confiar em uma notícia se não sabe quem — ou o quê — a produziu?
Nos Estados Unidos, onde a maioria dos jornais enfrenta crises financeiras e cortes de pessoal, a pressão por adoção de ferramentas de IA é crescente. Empresas do setor argumentam que a tecnologia pode reduzir custos e aumentar a produtividade, mas críticos alertam que isso pode levar a uma precarização ainda maior da profissão. Nos últimos anos, demissões em redações tradicionais já foram justificadas pela necessidade de “modernização”, mas a substituição de funções humanas por algoritmos pode ser o passo seguinte.
Enquanto a discussão avança, jornalistas e sindicatos buscam formas de proteger seus direitos e garantir que a IA seja usada como ferramenta de apoio — nunca como substituta. A ética jornalística sempre foi baseada na autoria, responsabilidade e transparência, pilares que agora estão ameaçados pela automação. Se a McClatchy seguir em frente com essa estratégia, é provável que outras empresas do setor passem a adotar medidas semelhantes, o que poderia redefinir não apenas a forma como as notícias são produzidas, mas também como são consumidas.
Por enquanto, a polêmica está apenas começando. E enquanto empresas como a McClatchy não oferecem respostas claras, uma coisa é certa: o futuro do jornalismo não será escrito apenas por humanos — ou por máquinas — sozinhos.