Manifesto de Palantir gera polêmica sobre vigilância e poder das big techs
O CEO e cofundador da Palantir, Alex Karp, junto ao executivo Nicholas Zamiska, lançou recentemente o livro “A República Tecnológica”, acompanhado de um manifesto com 22 pontos divulgado nas redes sociais da empresa. As propostas, que defendem um modelo de tecnocracia autoritária, chamam a atenção por virem de uma gigante contratada pelo governo dos EUA para serviços de inteligência militar. O documento, que circula amplamente na internet, vem sendo criticado por especialistas e ativistas, que enxergam nele um risco claro de vigilância em massa e controle social. Em meio a discussões acaloradas, internautas expressam temor de que tais ideias possam se tornar realidade em um futuro próximo.
A Palantir, conhecida por desenvolver sistemas de análise de dados para governos e forças armadas, não economizou nas afirmações polêmicas. Em seu manifesto, a empresa elogia bilionários como Elon Musk — a quem classificam como agentes que “atuam onde o mercado falhou” —, sugerindo que figuras desse perfil deveriam ser aplaudidas. No entanto, entre os pontos mais alarmantes estão os que exaltam os valores progressistas dos Estados Unidos, alegando que, graças à influência americana, bilhões de pessoas nunca vivenciaram conflitos armados. Além disso, a empresa defende que aliados como Alemanha e Japão deveriam aumentar seus gastos militares para “proteger” a paz mantida pelos EUA, sob a justificativa de evitar que a China desequilibre a situação na Ásia.
Mas qual seria o papel das big techs nesse cenário proposto pela Palantir? Em diversos trechos do manifesto, a empresa afirma que os gigantes da tecnologia “devem” retribuir ao país que lhes proporcionou prosperidade, não apenas com desenvolvimento de armas, mas também com soluções para “combater a criminalidade violenta”. A Palantir se apresenta como uma instituição acima dos interesses corporativos, criticando políticos por não agirem com firmeza. Contudo, a realidade é outra: a empresa é especializada em inteligência artificial capaz de processar bilhões de dados pessoais, criando perfis detalhados para fins de marketing e usos ainda não revelados. A promessa de policiamento contra crimes violentos levanta uma questão crucial: até onde isso pode chegar?
Um exemplo recente da atuação da Palantir nesse sentido é seu contrato firmado com as Forças Armadas de Israel em 2024. Segundo relatos, a tecnologia da empresa foi empregada em Gaza e na Cisjordânia, onde dados foram compilados para otimizar operações militares. Embora a Palantir afirme apoiar Israel como “aliado ocidental estratégico”, o uso de suas ferramentas em territórios ocupados gerou fortes críticas internacionais. A empresa, que se diz apenas uma fornecedora de soluções analíticas, foi acusada de facilitar práticas questionáveis em um contexto de conflito que muitos classificam como genocídio. O paradoxo é evidente: como uma empresa que se diz defende a paz pode estar envolvida em operações que justamente a ameaçam?
Outro ponto controverso do manifesto é a postura da Palantir em relação à multiculturalidade. Nos pontos 21 e 22 do documento, a empresa classifica certas culturas como “disfuncionais e retrógradas”, sem especificar quais seriam. Essa afirmação levanta suspeitas sobre o viés ideológico por trás de suas tecnologias, especialmente quando se considera que seus sistemas são projetados para influenciar políticas públicas e segurança. A quem caberia definir quais culturas são aceitáveis ou não? E qual a legitimidade de uma corporação privada para tomar decisões tão sensíveis? Especialistas alertam que, ao assumir esse papel, a Palantir estaria normalizando uma forma de autoritarismo tecnológico, onde o controle social é exercido por meio de algoritmos e vigilância constante.
A recepção ao manifesto tem sido majoritariamente negativa. Em uma rede social, um usuário escreveu: “Empresas não deveriam publicar manifestos sobre como nossas sociedades devem funcionar. Quando corporações privadas tentam assumir o papel de governos ou de formuladores de políticas, isso representa uma ameaça à segurança nacional e ao modo de vida ocidental”. Outra crítica veio de um engenheiro escocês, que afirmou: “Não há palavras suficientes para descrever o quão urgente é desmantelar essa empresa, apreender seus ativos e destruir completamente seus sistemas de armazenamento de dados”. Ele também teceu duras críticas ao Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido por aprofundar parcerias com a Palantir, apesar das claras intenções questionáveis da empresa.
A Palantir, contudo, segue firme em sua narrativa. O manifesto reflete a visão de um futuro onde dados pessoais são moeda de troca, e a privacidade, um privilégio. Especialistas em direitos digitais alertam que, se implementados, tais modelos podem levar a um cenário de “tecno-feudalismo”, onde cidadãos são submetidos a um controle constante por meio de tecnologias de vigilância. No entanto, ainda há tempo para reverter esse quadro. Movimentos de defesa da privacidade e organizações de direitos humanos vêm pressionando por regulamentações mais rígidas sobre o uso de inteligência artificial e coleta de dados. A sociedade civil, portanto, tem um papel fundamental em barrar essa escalada autoritária antes que seja tarde demais.
Enquanto a discussão sobre o manifesto da Palantir ganha força, especialistas pedem cautela. Afinal, o discurso de “proteção e segurança” muitas vezes serve como justificativa para a expansão de poderes governamentais e corporativos. A pergunta que fica é: até que ponto estamos dispostos a abrir mão de nossa privacidade em nome de uma suposta estabilidade? Em um mundo cada vez mais conectado, a fronteira entre segurança e opressão torna-se cada vez mais tênue — e cabe à população decidir qual caminho trilhar.