Manutenção: o que precisamos consertar urgentemente

Stewart Brand, lendário da cultura tech, lança obra que instiga reflexão sobre a manutenção de sistemas — mas deixa lacunas críticas. Em “Manutenção: De Tudo, Parte Um”, o arquiteto do Whole Earth Catalog — movimento que ajudou a moldar a contracultura e a revolução digital — propõe uma visão abrangente sobre como a manutenção de ferramentas, infraestruturas e tecnologias afeta nossas vidas diárias. Brand argumenta que consertar e manter não é apenas uma tarefa rotineira, mas um ato radical de responsabilidade, capaz de transformar desde objetos cotidianos até o futuro do planeta. No entanto, embora a obra abra discussões importantes, ela pecar pela falta de respostas concretas e, em muitos momentos, pela superficialidade ao tratar de questões políticas e sociais que permeiam a manutenção.

A manutenção como ato revolucionário — ou a ausência dela. Brand, aos 87 anos, traz em seu novo livro uma reflexão sobre como a sociedade negligencia o que mantém o mundo funcionando. Ao contrário do que muitos pensam, consertar uma geladeira, atualizar um software ou restaurar um prédio não são atividades simples ou menos valiosas: são essenciais. No entanto, o livro — anunciado como “a primeira obra a examinar a manutenção de forma abrangente” — não entrega aquilo que promete. Em vez de um tratado sistemático, a leitura se apresenta como um misto de memórias, ensaios aleatórios e anedotas, sem um fio condutor claro. Brand, que já foi celebrado por conectar inovação e tecnologia com ideais progressistas, parece agora focado em uma narrativa individualista, onde a manutenção é retratada como uma jornada pessoal de realização, mais do que uma responsabilidade coletiva.

O mito do herói solitário que conserta o mundo. Brand é um personagem fascinante: ex-integrante dos Merry Pranksters, grupo de contracultura liderado por Ken Kesey nos anos 1960, ele foi também fundador do Whole Earth Catalog, uma publicação que se tornou bíblia para hippies e entusiastas do movimento “volta à terra”. Seu trabalho ajudou a pavimentar o caminho para a cultura do “faça você mesmo”, mas sempre com um viés libertário, onde a solução individual se sobrepõe à mudança coletiva. Essa filosofia — de que as pessoas podem (e devem) consertar suas próprias vidas com acesso a ferramentas — permeia toda a obra, inclusive este novo livro. No entanto, ao contrário de movimentos sociais como o feminismo, os direitos civis ou o ambientalismo, Brand não enxerga a manutenção como uma luta política, mas como uma prática pessoal. O resultado é uma narrativa que soa nostálgica, mas pouco engajada com as realidades contemporâneas.

Manutenção: uma pauta acadêmica que o Brasil precisa abraçar. Desde meados dos anos 2010, a manutenção tornou-se um tema quente nas universidades ao redor do mundo. No Brasil, contudo, ainda engatinha. O autor deste texto, por exemplo, foi um dos cofundadores da Maintainers — uma rede global que estuda a cultura da manutenção, reparo e cuidado — e pode atestar como esse campo ainda é marginalizado. Brand tem razão quando afirma que os mantenedores não recebem o reconhecimento que merecem. Nas empresas, nas políticas públicas e até na mídia, a inovação é sempre celebrada, enquanto a manutenção é vista como algo tedioso, secundário. Basta observar a precária condição da infraestrutura brasileira — pontes que caem, estradas esburacadas, hospitais sem manutenção — para perceber o quanto negligenciamos aquilo que mantém o país de pé. E quando se trata de produtos tecnológicos, a situação é ainda pior: fabricantes como a Apple e a Samsung travam o reparo de dispositivos por meio de peças proprietárias, forçando os consumidores a comprar novos aparelhos em vez de consertar os antigos. Essa prática não só prejudica o bolso do usuário, como contribui para o desperdício eletrônico que sufoca aterros sanitários pelo mundo.

Uma obra que oscila entre o poético e o confuso. O livro de Brand é dividido em dois capítulos principais. O primeiro, “A Corrida da Manutenção”, conta a história de três marinheiros que participaram da Golden Globe Race — uma prova de volta ao mundo em solitário — cada um com uma abordagem diferente sobre manutenção. Um negligenciou completamente, outro planejou tudo meticulosamente, e o terceiro adotou a filosofia “o que vier, a gente resolve”. A narrativa é construída como um conto de fadas, com heróis brancos e masculinos agindo em situações de vida ou morte. Brand admite que a intenção é inspirar, mas a abordagem soa antiquada e pouco inclusiva. O segundo capítulo, “Veículos (e Armas)”, é uma maratona de mais de 150 páginas, repleta de digressões, subdigressões e notas que mais parecem rascunhos de um trabalho futuro do que um texto coeso. Em vez de um argumento sólido, o leitor se depara com uma colagem de histórias sobre manutenção de automóveis, rifles e até manuais técnicos, muitas delas retiradas de outras obras sem o devido crédito ou aprofundamento.

A obsessão pela simplicidade e o mito da auto-suficiência. Brand tem um fascínio recorrente por estruturas baratas e fáceis de consertar, como o Ford Model T, o Fusca e o Lada russo — carros que, segundo ele, sobreviveram por décadas justamente por permitirem que seus donos fizessem reparos sozinhos. Essa narrativa, embora romântica, ignora a realidade de milhões de pessoas que não queriam consertar seus veículos, mas precisavam de algo barato e confiável. Brand cita Henry Ford como um exemplo de genialidade por ter criado um carro que não exigia manutenção constante, mas esquece de mencionar que, para muitas famílias, a opção não era entre consertar ou não, e sim entre ter um carro ou não ter transporte algum. Além disso, o livro não traz pesquisas ou dados que mostrem como as pessoas realmente se sentem em relação à manutenção: será que a maioria prefere consertar ou prefere evitar problemas? Brand não investiga.

Elon Musk: o herói improvável da manutenção?. Em uma seção que beira o hagiográfico, Brand eleva Elon Musk à condição de salvador do mundo graças à sua obsessão por veículos elétricos e tecnologias “game changers”. Segundo o autor, Musk teria feito mais pela humanidade do que qualquer outro líder empresarial de sua geração, combinando design engenhoso com custos surpreendentemente baixos. No entanto, essa visão ignora as múltiplas controvérsias envolvendo Musk — desde acusações de assédio até práticas antissindicais na Tesla — que já eram públicas quando o livro foi escrito. Além disso, Brand não questiona se os carros elétricos são realmente mais fáceis de manter do que os movidos a combustão, ou se a obsolescência programada nos dispositivos da Tesla (como a limitação de reparos por terceiros) não estaria minando justamente o princípio da manutenção que ele tanto defende. A Tesla, afinal, é conhecida por dificultar o acesso a peças e manuais, forçando consumidores a recorrerem a oficinas autorizadas — exatamente o tipo de prática que o movimento “right to repair” (direito de consertar) combate.

A manutenção como privilégio — e não como direito. Um dos pontos mais frágeis do livro é a ausência de uma discussão sobre como a manutenção não é uma atividade neutra, mas profundamente desigual. Em muitos casos, manter um sistema obsoleto (como um carro a gasolina ou uma usina a carvão) não é um ato progressista, mas reacionário, que perpetua danos ambientais e sociais. Além disso, a responsabilidade pela manutenção recai desproporcionalmente sobre mulheres, pessoas negras e comunidades de baixa renda — que muitas vezes são forçadas a arcar com o trabalho não remunerado de consertar o que está quebrado, enquanto as elites inovam e descartam. Brand, contudo, ignora esses vieses. Para ele, a manutenção é sempre positiva, um valor em si mesmo, sem considerar as consequências políticas ou ambientais de se manter estruturas danosas. Essa visão ingênua beira a irresponsabilidade em um mundo onde a crise climática exige mudanças radicais, não a perpetuação de sistemas insustentáveis.

O que falta: uma abordagem política e sistêmica. Enquanto acadêmicos como Lee Vinsel — professor da Virginia Tech e cofundador do movimento Maintainers — têm avançado em estudos que mostram como a manutenção está ligada a questões de justiça social, raça e gênero, Brand prefere um caminho mais individualista. Em seu livro, não há menção à crise de moradia no Brasil, à falta de saneamento básico ou à precariedade dos hospitais públicos — problemas que poderiam ser atenuados com políticas sérias de manutenção. Também não há discussão sobre como a gig economy (economia de bicos) explora trabalhadores que são, na prática, mantenedores invisíveis: entregadores que consertam suas bikes, motoristas de aplicativo que improvisam reparos em seus carros, ou mesmo técnicos de informática que resolvem problemas de terceiros por migalhas. Brand trata a manutenção como uma atividade nobre, mas não como uma luta por direitos.

O Whole Earth Catalog: uma utopia libertária que ajudou a criar o Vale do Silício. Para entender o pensamento de Brand, é preciso voltar ao seu projeto mais famoso. Lançado em 1968, o Whole Earth Catalog era uma espécie de manual de sobrevivência para hippies e adeptos do movimento “volta à terra”. Nele, Brand reunia ferramentas, técnicas e conhecimentos para viver fora do sistema — desde bombas d’água até painéis solares. A publicação tinha um tom progressista, mas sua filosofia era profundamente libertária: a solução para os problemas do mundo estaria nas mãos de indivíduos empreendedores, não em mudanças estruturais. Essa mentalidade, anos depois, se alinharia perfeitamente com a cultura do Vale do Silício, onde a inovação é celebrada acima de tudo — mesmo que isso signifique descartar o que já existe. Brand, inclusive, foi um dos responsáveis por conectar o MIT Media Lab ao mundo corporativo, ajudando a moldar uma visão de tecnologia que prioriza a inovação em detrimento da manutenção.

O “Romance da Manutenção”: uma visão poética, mas limitada. Em um de seus livros anteriores, “Como os Edifícios Aprendem”, Brand defendeu a ideia de que prédios simples e baratos são mais fáceis de adaptar e consertar do que estruturas complexas e modernistas. Nesse aspecto, ele antecipou discussões que hoje são centrais na arquitetura sustentável. No entanto, em “Manutenção: De Tudo, Parte Um”, ele retoma essa ideia de forma superficial, sem explorar como a manutenção pode ser uma ferramenta de resistência contra a obsolescência programada. Brand fala sobre o prazer de consertar objetos, mas não menciona como grandes corporações — como a Apple, a Samsung ou a Sony — lucram com a cultura do descarte, forçando os consumidores a comprar novos produtos em vez de consertar os antigos. Em um país como o Brasil, onde a cultura do “jeitinho” muitas vezes suplanta a falta de manutenção adequada, essa discussão seria crucial. Afinal, consertar um celular com fita adesiva é manutenção ou é sintoma de um sistema que falha?

A manutenção no Brasil: entre o “jeitinho” e a precariedade. O Brasil tem uma relação ambígua com a manutenção. Por um lado, a cultura popular valoriza a capacidade de improvisar soluções — o famoso “jeitinho brasileiro” — que muitas vezes substitui a manutenção adequada. Por outro, o país sofre com uma infraestrutura decadente, onde pontes desabam, hospitais não têm equipamentos básicos e estradas se transformam em buracos. A manutenção, nesse contexto, não é uma escolha, mas uma necessidade de sobrevivência. No entanto, o Brasil ainda carece de políticas públicas que incentivem a manutenção preventiva, tanto no setor público quanto no privado. Enquanto países como a Alemanha e o Japão investem pesadamente em manutenção de suas infraestruturas, o Brasil ainda trata esse tema como algo secundário. E quando se fala em manutenção de tecnologias, a situação é ainda pior: a maioria dos brasileiros não tem condições de consertar seus próprios dispositivos, seja por falta de peças, falta de conhecimento ou por fabricantes que travam o acesso a informações técnicas.

O que Brand poderia ter dito — e não disse. Se “Manutenção: De Tudo, Parte Um” tivesse sido escrito por um autor menos apegado à sua própria narrativa, poderia ter sido uma obra transformadora. Afinal, a manutenção é um tema urgente, especialmente em um mundo cada vez mais dependente de tecnologias complexas e infraestruturas envelhecidas. No entanto, Brand prefere um tom contemplativo, quase poético, em vez de enfrentar as contradições do tema. Ele não questiona, por exemplo, se a manutenção de sistemas ultrapassados (como usinas nucleares ou aviões a querosene) é realmente sustentável, ou se a obsolescência programada não é uma estratégia deliberada das empresas para manter os consumidores presos em um ciclo de consumo. Também não aborda como a manutenção pode ser uma ferramenta de empoderamento para comunidades marginalizadas, ou como políticas públicas poderiam democratizar o acesso a técnicas de reparo.

A herança de Brand: entre a contracultura e o Vale do Silício. Stewart Brand é uma figura paradoxal. Ele foi um dos responsáveis por conectar a contracultura dos anos 1960 com a revolução digital dos anos 1990, ajudando a criar a cultura do “faça você mesmo” que hoje domina a internet. No entanto, sua visão sempre foi individualista, focada no indivíduo empreendedor como agente de mudança, em vez de um movimento coletivo. Essa abordagem, que floresceu no Vale do Silício, é parte do problema: ela celebra a inovação acima de tudo, enquanto a manutenção — atividade menos glamorosa — é deixada de lado. Brand, em sua nova obra, não foge desse padrão. Em vez de propor mudanças sistêmicas, ele prefere contar histórias de heróis solitários que consertam o mundo sozinhos.

O futuro da manutenção: para além do livro de Brand. Se “Manutenção: De Tudo, Parte Um” não cumpre sua promessa de ser uma obra abrangente sobre o tema, isso não significa que o debate sobre manutenção perdeu relevância. Pelo contrário: em um mundo assolado por crises climáticas, econômicas e sociais, a manutenção nunca foi tão importante. No Brasil, onde a infraestrutura está em colapso e a cultura do descarte impera, é urgente discutir como podemos repensar nossos sistemas para que sejam mais duráveis, reparáveis e sustentáveis. Isso inclui desde políticas públicas que incentivem a manutenção preventiva até movimentos sociais que lutem pelo direito de consertar nossos próprios dispositivos. Brand pode não ter as respostas, mas sua obra serve como um lembrete de que, sem manutenção, não há futuro.

Conclusão: a manutenção como ato político. Stewart Brand nos oferece em “Manutenção: De Tudo, Parte Um” um vislumbre de um tema complexo e urgente, mas fica aquém de uma reflexão profunda. Seu livro é um mosaico de histórias e ideias, algumas inspiradoras, outras confusas, mas todas carregadas de um otimismo ingênuo. A manutenção, afinal, não é apenas uma questão técnica ou individual — é uma questão política. Ela envolve justiça social, ambientalismo, direitos do consumidor e até mesmo democracia. Enquanto Brand prefere o romantismo do herói solitário, a realidade exige que pensemos em manutenção como um direito coletivo, uma luta por sistemas mais justos e duradouros. Talvez, nas próximas partes de sua série, ele consiga ir além das anedotas e abordar de fato os desafios — e as contradições — daquilo que mantém o mundo funcionando.