Por que consertar tudo é essencial

Nova obra de Stewart Brand, ícone da cultura tech, levanta discussões sobre priorizar a manutenção — mas deixa lacunas importantes.

O recém-lançado livro Maintenance: Of Everything, Part One, do lendário guru da tecnologia Stewart Brand, promete ser o primeiro volume de uma série que se propõe a oferecer “uma visão abrangente sobre a importância civilizacional da manutenção”. Segundo biógrafos, Brand é uma figura central tanto no movimento contracultural quanto no cibercultural, e com essa obra ele busca nos fazer entender que a conservação e o reparo de ferramentas e sistemas têm um impacto profundo no cotidiano. Como ele mesmo coloca: “Assumir a responsabilidade de manter algo — seja uma motocicleta, um monumento ou nosso planeta — pode ser um ato radical.” Mas quão radical seria isso? Essa pergunta fica sem resposta no livro. Em um esboço da obra completa, Brand afirma que seu objetivo é “terminar com a natureza dos mantenedores e a honra que lhes é devida”. A ideia de que os profissionais da manutenção merecem ser homenageados, quiçá receberem honrarias, pode surpreender muitos leitores. Afinal, manutenção e reparo vêm sendo temas quentes na academia desde meados dos anos 2010, e eu tive um papel nesse movimento como cofundador da Maintainers, uma rede global e interdisciplinar dedicada ao estudo da manutenção, reparo, cuidado e todo o trabalho que mantém o mundo funcionando.

Brand está certo ao destacar que os mantenedores não recebem os louros que merecem. Nas últimas décadas, estudiosos demonstraram que tarefas que vão desde lubrificar ferramentas até substituir peças desgastadas ou atualizar bases de código costumam ter menos status do que a “inovação”. A manutenção é negligenciada em inúmeros contextos organizacionais e sociais (basta olhar para parte da infraestrutura americana!). Além disso, como o movimento pelo direito à reparação tem mostrado, empresas em busca de maiores lucros frequentemente nos impedem de consertar nossos próprios produtos ou reduzem drasticamente a vida útil dos itens que fabricam. É difícil encontrar outra razão para instalar um computador na porta de uma geladeira, por exemplo. Grande parte das ideias de Brand em obras anteriores ajudou a inspirar essas discussões, mas seu novo livro me faz pensar que ele não vê as coisas por esse ângulo. Para Brand, a manutenção parece ser um ato solitário, profundo, mas mais relacionado ao sucesso e à realização pessoal do que ao cuidado com um mundo compartilhado ou à sua melhora.

Nascido em 1938, Brand tem hoje 87 anos, e há um tom melancólico permeando a obra — com suas batalhas contra corrosão, ferrugem e decadência, com suas tentativas de manter as coisas funcionando mesmo quando inevitavelmente falham. É como se ele estivesse olhando para a própria vida e ponderando sobre o seu fim. Maintenance: Of Everything conecta-se a cada etapa da trajetória de Brand. Vale a pena revisitar onde esse projeto se encaixa nesse arco. Brand sempre teve interesse por ferramentas e consertos, mas raramente focou nos sistemas que mais precisam de cuidado.

Mais de meio século atrás, Brand fazia parte dos Merry Pranksters, um coletivo hippie contracultural centrado em LSD, famoso por ter como líder Ken Kesey, autor de Um Voo Sobre o Ninho do Cuco. Em 1966, Brand co-produziu o Trips Festival, onde bandas como Grateful Dead e Big Brother and the Holding Company se apresentaram para milhares de pessoas em meio a shows de luzes psicodélicas. O Whole Earth Catalog, publicado pela primeira vez em 1968, tinha uma visão que poderia parecer progressista, mas sua filosofia libertária e individualista de reconstruir a civilização sozinho contrastava com os movimentos de mudança social coletiva da época, como direitos civis, feminismo e ambientalismo.

Brand aplicou essa lógica de rede ao projeto pelo qual seria sempre lembrado: o Whole Earth Catalog. Voltado para hippies e membros do movimento de volta às origens rurais, a publicação trazia o lema “Acesso a ferramentas”. Suas páginas estavam repletas de abrigos Quonset, domos geodésicos, painéis solares, bombas d’água, filtros de água e outras tecnologias para uma vida fora da rede. Era uma visão que poderia ser vista como progressista ou de esquerda, mas a filosofia libertária e individualista de rejeitar sistemas corruptos e reconstruir a civilização sozinho ia na contramão dos movimentos coletivos que buscavam mudanças sociais profundas na época.

Essa visão também levou diretamente ao empoderamento proporcionado pelas novas ferramentas digitais e, consequentemente, ao Vale do Silício. Em 1985, Brand publicou o Whole Earth Software Catalog, o último da série, e também fundou a WELL (Whole Earth ’Lectronic Link), uma comunidade online pioneira que, entre outras coisas, facilitava a troca de bootlegs do Grateful Dead. Ele também escreveu um livro hagiográfico sobre o MIT Media Lab, conhecido por suas pesquisas patrocinadas por corporações em novas tecnologias de comunicação. “O laboratório curaria as patologias da tecnologia não com economia ou política, mas com tecnologia”, escreveu Brand. Novamente, não se trata de ação coletiva ou formulação de políticas, mas de ferramentas. E Brand ainda fundou a Global Business Network, um grupo de futuristas consultores de alto nível que o conectou ainda mais ao MIT, Stanford e ao Vale do Silício. Ele havia, literalmente, ajudado a moldar a revolução digital moderna.

Sua atenção então se voltou para a manutenção dela. Em seu livro de 1994, Como os Edifícios Aprendem: O que Acontece Depois que São Construídos, Brand argumentou contra as ideias arquitetônicas do alto modernismo. Quase todos os edifícios acabam sendo reformados, mas ele defendia estruturas baratas e simples que os próprios moradores pudessem facilmente adaptar às suas necessidades. De certa forma, Brand recapitulava a filosofia libertária do Whole Earth Catalog: as pessoas podem reconstruir seu mundo se tiverem acesso a ferramentas. Em um capítulo intitulado “O Romance da Manutenção”, ele pediu aos leitores para enxergarem a beleza, o valor e os prazeres ocasionais de reformar qualquer tipo de objeto. Esse capítulo tornou-se um marco para muitos de nós no subcampo acadêmico dos estudos sobre manutenção. Pesquisadores de disciplinas como história, sociologia e antropologia, além de artistas e profissionais de áreas como bibliotecas, TI e engenharia, começaram a tentar entender as realidades — e sim, o romantismo — da manutenção e do reparo. Brand participou de listas de discussão, compareceu a conferências e conversou com líderes intelectuais. Por isso, soa um tanto injusto quando ele escreve que seu novo livro é “o primeiro a olhar para a manutenção de forma geral”. Ele sabe melhor do que isso. A verdadeira questão, no entanto, é o que sua obra pode nos ensinar que outros ainda não disseram. Nesse primeiro volume, a resposta não fica clara.

Maintenance: Of Everything, Part One é um livro estranho. Se grande parte do pensamento de Brand sempre girou em torno do acesso a ferramentas, agora ele pergunta de forma mais ampla: como nossas ferramentas são mantidas? Mas enquanto Brand iniciou sua carreira com um catálogo, nesse volume o que temos… o quê? Um resumo? Um almanaque? Uma enciclopédia? Sua forma e sua variedade caótica não se encaixam facilmente em nenhum gênero. O livro tem dois capítulos. O primeiro, “A Corrida da Manutenção”, conta a história de três homens que participaram da Golden Globe, uma regata ao redor do mundo para velejadores solitários realizada em 1968. Cada um dos marinheiros, explica Brand, tinha uma filosofia diferente de manutenção. Um negligenciava o assunto e torcia pelo melhor; ele morreu. Outro pensava em tudo com antecedência e, embora não tenha vencido a corrida, a concluiu e chegou a deter o recorde da “viagem mais longa registrada em velejo solo sem escalas”. O terceiro venceu e o fez por meio de atos heroicos de perseverança; sua abordagem era “O que vier, a gente resolve”, nas palavras de Brand. Estruturado como um conto de fadas e inegavelmente romântico, a história — como a maioria das anedotas do livro — foca nas proezas de homens brancos vigorosos. A estratégia não é segredo. O esboço de Brand explica: “Começar com uma disputa dramática de estilos de manutenção sob condições de vida críticas — uma história verdadeira contada como fábula”. Essa narrativa tem a intenção de inspirar.

O segundo capítulo, “Veículos (e Armas)”, tem mais de 150 páginas. Possui cinco seções, múltiplas subseções, cinco subseções designadas como “divagações”, uma chamada de “subdivagação”, dois “posfácios” e várias “notas de rodapé” que, na verdade, não são notas formais, mas sim adendos adicionais. Às vezes, tudo isso parece anotações para uma obra futura. Brand não pede desculpas pela falta de clareza do livro. “Tudo o que posso oferecer aqui”, escreve ele, “é refletir sobre uma amostra representativa de domínios da manutenção e ver o que surge”. Talvez a leitura mais generosa desse caldeirão seja que ele representa o retorno de um Merry Prankster, oferecendo-nos um show de luzes caótico e variado. É um bom livro para deixar sobre uma mesa e ocasionalmente abrir em uma página aleatória para entretenimento. Mas muitas vezes parece que ele não sabe o que quer dizer ou ser.

“Veículos (e Armas)” começa parafraseando duas obras famosas da filosofia da manutenção: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig, e A Alma do Ofício, de Matthew B. Crawford. A manutenção envolve tanto a “identificação do problema” quanto a “solução do problema”. Enquanto grande parte do trabalho de reparo é marcada por ansiedade, impaciência e tédio, ele também oferece valores e resultados positivos. “Os mantenedores de motocicletas se animam com aquilo que consertam — a glória da viagem”, escreve Brand. A beleza e o triunfo da simplicidade são temas recorrentes ao longo da obra, remetendo a Como os Edifícios Aprendem. O Ford Model T venceu os primeiros veículos elétricos e carros de luxo extremamente caros, como o Rolls-Royce Silver Ghost, porque era barato e mais fácil de manter. Os três carros mais populares da história — o Ford Model T, o Fusca e o Lada “Clássico” da Rússia — todos priorizavam a simplicidade, “mantiveram seu projeto básico por décadas e… convidavam (ou, para ser justo, exigiam) o reparo pelo próprio dono”. Para cada entusiasta que se delicia em manter seu Fusca funcionando de forma independente, deve ter havido milhares de pessoas que apreciavam o preço baixo mas odiavam o fato de o carro quebrar com frequência. Brand nunca recorre a pesquisas sociais, como levantamentos, que poderiam nos ajudar a entender os sentimentos das pessoas sobre esses assuntos.

Outras seções do livro recountam como os americanos criaram peças intercambiáveis (permitindo não apenas a produção em massa barata, mas também a manutenção fácil), examinam como a manutenção funciona com fuzis de assalto e em guerras, e traçam a história dos manuais técnicos desde o período moderno inicial até a era do YouTube. Essas histórias são sólidas, mas também são bem conhecidas por estudantes de tecnologia, e quase todas são recicladas do trabalho de outros, com inúmeras citações longas. O volume não traz quase nenhum novo conhecimento. Brand trata a manutenção como um bem inquestionável. Mas o campo dos estudos sobre manutenção avançou, explorando as ironias, complexidades e dificuldades desse domínio. Um exemplo simples: na maioria dos casos, é ambientalmente muito melhor aposentar e reciclar um veículo movido a combustão interna e comprar um elétrico do que manter o “monstro” poluidor funcionando eternamente. Manter um carro que consome muita gasolina ou uma usina movida a carvão não é um ato radical, mas regressivo. Além disso, a manutenção pode se tornar um fardo esmagador para os pobres, e recai de forma desigual sobre mulheres e pessoas não brancas. Manter sistemas existentes funcionando pode ser uma forma de evitar mudanças necessárias e difíceis — como tornar os sistemas tecnológicos mais acessíveis para pessoas com deficiência. Nesse volume, Brand não está interessado nessas difíceis compensações. Ele evita qualquer questão sobre como a política molda esses problemas ou como eles moldam a política.

Essa omissão fica mais clara em uma seção de “Veículos (e Armas)” que fala sobre Elon Musk — um personagem de “domínio único”, segundo Brand. Ele nos conta que Bill Gates uma vez vendeu ações da Tesla e perdeu US$ 1,5 bilhão. A lição é clara: Musk venceu. Em que visão política e social o dinheiro é o melhor jeito de manter a pontuação? Brand está certo ao apontar que os veículos elétricos têm menos peças móveis e, nesse sentido, são mais fáceis de manter do que os movidos a combustão interna. Ele celebra Musk principalmente porque seus produtos “provaram ser revolucionários em parte porque combinam design engenhoso com custos surpreendentemente baixos”. Novamente, trata-se da hipótese de “ferramentas baratas e acessíveis” de Brand. Mas há uma superficialidade real e falta de aprofundamento nesse pensamento: os Teslas continuam sendo veículos de luxo cujas vendas despencaram desde que os subsídios federais desapareceram. A empresa enfrentou várias ações judiciais relacionadas ao direito à reparação; há até mesmo um artigo em uma revista jurídica sobre o tema. Musk, de forma alguma, é um herói da manutenção. Ainda assim, Brand escreve que, com suas empresas, “Musk pode ter feito mais para salvar o mundo na prática do que qualquer outro líder empresarial de sua época”. Quando Brand escrevia esse livro, as controvérsias em torno de Musk — incluindo acusações de flertar com antissemitismo, racismo, sexismo, autoritarismo e muito mais — já eram bem conhecidas. Sobre isso, o livro não diz uma palavra.

Certamente, Brand não precisa concordar com os críticos de Musk, mas deixar de mencionar o assunto sequer é um ato de surdez seletiva e falta de conexão com a realidade. Outros já argumentaram que a mentalidade do Vale do Silício de “Mova-se rápido e quebre as coisas” mina a manutenção saudável. Brand não levanta essa ideia — nem mesmo para rejeitá-la. Talvez Maintenance: Of Everything, Part One seja apenas o começo; que nos volumes seguintes ele tenha algo mais coerente a dizer; que levante perguntas realmente difíceis e tente respondê-las. Mas dado seu histórico, podemos duvidar disso com razão. Kesey disse que Brand se apega ao poder; certamente ele não o questiona. A manutenção, afinal, não é apenas técnica — é também política e social.

O debate sobre a importância da manutenção transcende o âmbito técnico e adentra questões éticas e estruturais. Quando Brand ignora as implicações sociais e ambientais de suas ideias, ele reduz um tema complexo a uma narrativa simplista de “heróis” e “ferramentas baratas”. A manutenção, quando mal aplicada, pode perpetuar desigualdades e danos ambientais. Por exemplo, incentivar a manutenção de aparelhos antigos e ineficientes, em vez de promover a substituição por modelos mais sustentáveis, pode ser contraproducente em longo prazo. Além disso, a romantização da autossuficiência, como sugerida por Brand, muitas vezes mascara a realidade de que muitas pessoas não têm tempo, recursos ou conhecimento técnico para realizar reparos complexos. Isso é especialmente verdadeiro em sociedades onde a mão de obra especializada é cara e inacessível para a maioria.

Outro ponto crucial é a questão de gênero. Estudos mostram que, globalmente, as mulheres dedicam horas significativas a tarefas de manutenção doméstica não remunerada, desde consertar roupas até gerenciar a manutenção de lares. Essa carga invisível muitas vezes não é reconhecida, muito menos valorizada. Brand, ao focar em figuras heroicas e individuais, ignora como a manutenção está intrinsicamente ligada a estruturas de poder e gênero. A idealização da autossuficiência também pode ser elitista, pressupondo que todos têm acesso a ferramentas e conhecimento para realizar reparos, o que simplesmente não é o caso.

Além disso, a ênfase de Brand na simplicidade e no baixo custo pode ser problemática em um mundo cada vez mais complexo. Tecnologias modernas, como smartphones e computadores, são projetadas para serem cada vez mais difíceis de reparar, com componentes soldados e designs fechados. Isso não é um acidente, mas uma estratégia corporativa para aumentar as vendas de novos produtos. Nesse contexto, defender a manutenção como um ato de rebeldia individual é insuficiente. É necessário um movimento coletivo que exija direitos à reparação, regulamentações que obriguem fabricantes a projetar produtos duráveis e acessíveis, e políticas públicas que tornem a manutenção uma atividade valorizada e acessível a todos.

Brand também parece desconectado das realidades geopolíticas. Sua visão otimista e individualista não considera como a manutenção é afetada por conflitos, desigualdades globais e crises econômicas. Em países em desenvolvimento, por exemplo, a falta de infraestrutura adequada muitas vezes torna a manutenção de tecnologias básicas — como sistemas de água potável ou redes elétricas — uma tarefa hercúlea. Nesses contextos, a manutenção não é apenas uma questão de ética pessoal, mas de sobrevivência coletiva. Ignorar essas dimensões é reduzir um tema profundamente humano e social a uma mera questão de ferramentas e habilidades individuais.

A obra de Brand, embora inspiradora em muitos aspectos, peca por sua falta de profundidade crítica. Ao apresentar a manutenção como um ato heroico e individual, ele deixa de lado as estruturas que tornam a manutenção necessária em primeiro lugar. A manutenção não é apenas uma atividade técnica; é um reflexo de nossas prioridades sociais, econômicas e ambientais. Quando negligenciamos a manutenção de sistemas públicos, por exemplo, estamos, na verdade, negligenciando nosso compromisso com uma sociedade mais justa e sustentável. Da mesma forma, quando empresas como a Tesla priorizam o design inovador em detrimento da reparabilidade, estão perpetuando um modelo que beneficia poucos às custas de muitos.

O livro também levanta questões interessantes sobre a relação entre inovação e manutenção. Brand parece sugerir que a manutenção é o oposto da inovação, quando, na realidade, as duas são complementares. A inovação cria novas tecnologias, mas é a manutenção que garante que essas tecnologias continuem funcionando e evoluindo. Sem manutenção, a inovação perde seu valor. Nesse sentido, Brand poderia ter explorado mais como a manutenção pode ser uma forma de inovação em si mesma — por exemplo, ao encontrar soluções criativas para prolongar a vida útil de produtos em um mundo com recursos limitados.

Outro aspecto negligenciado por Brand é a dimensão cultural da manutenção. Em muitas sociedades, a manutenção é vista não apenas como uma necessidade prática, mas como uma prática cultural e espiritual. Por exemplo, no Japão, a arte do kintsugi — reparar cerâmicas quebradas com ouro — transforma objetos danificados em obras de arte, celebrando sua história e resiliência. Essa abordagem contrasta fortemente com a cultura do descartável ocidental, que prioriza o novo em detrimento do duradouro. Brand poderia ter se beneficiado de explorar essas perspectivas culturais, que oferecem uma visão mais holística e menos individualista da manutenção.

Além disso, o livro levanta questões sobre a educação e a formação de mantenedores. Em um mundo cada vez mais tecnológico, a manutenção não se limita a consertar máquinas; ela envolve entender sistemas complexos, desde redes de computadores até infraestruturas críticas. Nesse contexto, é fundamental que as escolas e universidades invistam em programas de formação que preparem os alunos para as demandas da manutenção moderna. Brand, no entanto, não aborda essa questão, focando mais em exemplos históricos e anedotas do que em soluções práticas para o futuro.

O movimento pelo direito à reparação, que tem ganhado força em todo o mundo, é um exemplo de como a manutenção pode ser uma questão política. Em muitos países, ativistas estão lutando por leis que obriguem os fabricantes a disponibilizar peças de reposição, manuais de reparo e ferramentas necessárias para consertar produtos. Essas leis não apenas empoderam os consumidores, mas também reduzem o desperdício e promovem uma economia mais circular. Brand, no entanto, não menciona esse movimento, optando por uma abordagem mais individualista e menos engajada politicamente.

A obra de Brand também poderia ter se beneficiado de uma discussão mais aprofundada sobre o papel da tecnologia na manutenção. Por exemplo, a manutenção preditiva, que utiliza sensores e inteligência artificial para antecipar falhas em máquinas e infraestruturas, está revolucionando setores como manufatura, aviação e energia. Essa abordagem não apenas melhora a eficiência, mas também reduz custos e impactos ambientais. Brand, no entanto, não explora essas inovações, preferindo focar em exemplos mais tradicionais e menos tecnológicos.

Outro ponto importante é a relação entre manutenção e sustentabilidade. Em um mundo enfrentando crises climáticas e escassez de recursos, a manutenção de produtos e infraestruturas existentes é fundamental para reduzir o desperdício e as emissões de carbono. Por exemplo, manter um prédio energicamente eficiente em vez de demoli-lo e reconstruí-lo do zero pode economizar recursos e reduzir a pegada de carbono. Brand aborda brevemente a questão ambiental, mas não desenvolve o tema de forma significativa, deixando de lado uma das discussões mais urgentes de nosso tempo.

Por fim, é importante refletir sobre o que o livro de Brand representa em termos de nostalgia e futuro. Brand, que esteve no centro de alguns dos movimentos mais transformadores do século XX, como a contracultura e o nascimento do Vale do Silício, parece nostálgico por um passado em que a manutenção era vista como um ato de rebeldia individual. No entanto, o mundo atual exige soluções coletivas e sistêmicas para os desafios da manutenção. A nostalgia de Brand, embora compreensível, pode ser um obstáculo para o progresso, pois nos impede de enxergar as novas formas de manutenção que estão emergindo.

Em resumo, Maintenance: Of Everything, Part One é uma obra interessante, mas limitada. Ela oferece insights valiosos sobre a importância da manutenção, mas falha em abordar as complexidades e implicações políticas, sociais e ambientais desse tema. Brand, com sua abordagem individualista e nostálgica, nos lembra que a manutenção pode ser um ato radical, mas também nos mostra que, para ser verdadeiramente transformadora, ela precisa ser coletiva, inclusiva e sustentável. Enquanto isso, os leitores interessados em aprofundar o tema terão que buscar outras obras e perspectivas que preencham as lacunas deixadas por Brand.