Vídeo falso com papa Leão XIV usa IA para aplicar golpe d…
Um vídeo que circula nas redes sociais afirma, de forma fraudulenta, que o papa Leão XIV teria nomeado o frei Gilson como “ferramenta de Deus” após supostos milagres realizados pelo religioso. A gravação, no entanto, é completamente falsa e foi produzida com técnicas avançadas de inteligência artificial (IA) para enganar os usuários. A farsa não apenas distorce a realidade, como também esconde um golpe do PIX, no qual as vítimas são induzidas a doar R$ 97 sob promessas falsas. O conteúdo foi disseminado por meio de anúncios patrocinados em plataformas da Meta, como Facebook, Instagram e WhatsApp, onde a manipulação de imagens e áudios se tornou cada vez mais comum nos últimos anos.
A fraude começa com uma chamada sensacionalista, típica de manchetes de tablóides, que anuncia “A maior notícia de 2026!!! 😯😯😯😯”. O vídeo apresenta quatro cenas diferentes, todas manipuladas com IA, exceto uma que, embora real, foi inserida fora de contexto. A primeira cena mostra o jornalista César Tralli no estúdio do *Jornal Hoje*, da TV Globo, com uma imagem da Basílica de São Pedro ao fundo. Ele anuncia: “Notícia urgente. O Papa acabou de iniciar um pronunciamento oficial, nomeando o Frei Gilson como ferramenta de Deus após ele realizar um milagre de cura”. A segunda cena, retirada de uma reportagem de 2025 sobre a fumaça branca na Capela Sistina — que anunciou a escolha de um novo papa —, é usada de forma enganosa, já que não tem relação alguma com o frei. As outras duas cenas são completamente sintéticas: uma imita o discurso do papa Leão XIV com áudio gerado por IA, enquanto a outra manipula a voz da correspondente Ilze Scamparini para reforçar a mentira.
No entanto, o objetivo final do golpe não é apenas disseminar uma notícia falsa, mas direcionar os usuários a um site fraudulento. Ao clicar no botão “assistir mais”, a vítima é redirecionada para uma transmissão ao vivo intitulada “Oração Sagrada do Grimório de São Bento”, que imita o canal de Frei Gilson no YouTube. O site replica não apenas o nome e a foto do religioso, mas também a imagem exibida antes das lives do rosário, uma prática comum em suas transmissões ao vivo. O conteúdo falso afirma que Frei Gilson teria recuperado uma versão original de uma “oração sagrada” com poderes de cura e prosperidade, e que a apresentadora Ana Maria Braga, do programa *Mais Você*, teria utilizado esse material durante seu tratamento contra o câncer. Em seguida, o frei falso pede doações para a construção de um suposto santuário e incentiva a compra de um livro físico, prometendo ainda um sorteio de viagens para a Itália e o Vaticano.
Para completar o esquema, a vítima é direcionada a uma página onde deve inserir dados pessoais e realizar um pagamento via PIX no valor de R$ 97 para obter o suposto grimório. A plataforma que intermediaria o pagamento não identifica o destinatário final do dinheiro, o que torna quase impossível rastrear os responsáveis. Segundo informações da equipe do *Fato ou Fake*, foram identificadas pelo menos 32 versões semelhantes desse anúncio na Biblioteca de Anúncios da Meta, uma ferramenta que permite consultar propagandas pagas veiculadas na plataforma. Os algoritmos da Meta direcionam esses conteúdos com base em idade, gênero, localização e interesses dos usuários, o que aumenta o potencial de alcance da fraude.
Em resposta ao aumento desses golpes, a Meta afirmou que está investindo em tecnologias de reconhecimento facial e em ferramentas de segurança para combater a disseminação de conteúdos fraudulentos. Em nota enviada à redação, a empresa destacou que “os golpes cresceram em escala e complexidade nos últimos anos, impulsionados por redes criminosas transnacionais implacáveis”. A companhia também mencionou que está capacitando os usuários para identificar e evitar esses tipos de fraudes, além de aplicar suas políticas contra golpes com maior rigor. No entanto, especialistas alertam que, enquanto houver dinheiro fácil a ser obtido com essas artimanhas, os criminosos continuarão aprimorando suas técnicas.
Mas por que essa história é claramente falsa? Em primeiro lugar, não há qualquer registro oficial do Vaticano mencionando Frei Gilson em discursos ou pronunciamentos do papa Leão XIV. O site oficial da Santa Sé, consultado pela equipe de checagem, não traz nenhuma menção ao religioso em seus comunicados. Além disso, o jornalista César Tralli deixou o *Jornal Hoje* em outubro de 2025 para assumir o *Jornal Nacional*, o que torna impossível que ele estivesse no estúdio do programa em 2026, como alegado no vídeo falso. Outra inconsistência é a ausência de qualquer registro oficial de Frei Gilson com o título “Oração Sagrada do Grimório de São Bento”. Buscas avançadas no Google não retornaram nenhum resultado compatível com o conteúdo fraudulento.
Para confirmar a manipulação, a equipe do *Fato ou Fake* submeteu todos os vídeos à análise de ferramentas especializadas em detecção de IA, como HiveModeration e Hiya Invid. Os resultados foram unânimes: todos os áudios tinham probabilidade superior a 97% de terem sido gerados por inteligência artificial. No caso do vídeo de Tralli, a HiveModeration indicou 98,6% de chances de uso de IA, enquanto a Hiya classificou o material como “muito provavelmente gerado por IA” com 97% de certeza. Os demais vídeos — do papa, de Ilze Scamparini, de Frei Gilson e de Ana Maria Braga — apresentaram porcentagens ainda mais altas, chegando a 99,3% de probabilidade de manipulação. Esses dados confirmam que a fraude não apenas distorce a realidade, como também representa um perigo crescente, já que a IA está se tornando cada vez mais acessível e sofisticada.
Esse caso não é um episódio isolado. Nos últimos anos, a disseminação de conteúdos sintéticos tem se tornado um problema global, com golpes envolvendo celebridades, autoridades e até instituições religiosas. Em março de 2024, por exemplo, circularam vídeos falsos do cantor Gonzaguinha supostamente alertando contra Jair Bolsonaro, que foram desmascarados como manipulações com IA. Da mesma forma, imagens do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro com o rosto abatido, supostamente tiradas em uma audiência nos EUA, também foram identificadas como criações artificiais. Esses exemplos mostram como a tecnologia, quando usada de forma maliciosa, pode causar danos significativos à credibilidade de pessoas e instituições.
O golpe envolvendo Frei Gilson e o papa Leão XIV é particularmente preocupante porque explora a fé e a confiança de milhões de seguidores. Frei Gilson é um sacerdote, cantor e influenciador católico com milhões de fiéis que acompanham suas transmissões ao vivo nas redes sociais. A manipulação de sua imagem e voz para vender um produto falso — no caso, um grimório — não apenas prejudica sua reputação, como também expõe seus seguidores a riscos financeiros. Além disso, o uso do nome de Ana Maria Braga, uma figura pública conhecida e respeitada, reforça a credibilidade da fraude na mente das vítimas, que podem ser induzidas a acreditar que a apresentadora realmente endossaria o conteúdo.
Outro aspecto alarmante desse golpe é a sofisticação com que foi montado. Os criminosos não se limitaram a criar um vídeo falso; eles também replicaram a identidade visual e os elementos de branding de Frei Gilson, incluindo a foto de perfil e a imagem exibida antes de suas lives. Isso torna o site fraudulento ainda mais convincente, já que muitos usuários podem não notar as diferenças sutis entre o conteúdo real e a farsa. Além disso, a promessa de um sorteio de viagens para a Itália e o Vaticano atua como um chamariz, explorando o desejo das pessoas por experiências únicas e a crença em milagres.
Para se proteger desses golpes, especialistas recomendam algumas medidas simples, mas eficazes. Em primeiro lugar, é fundamental desconfiar de conteúdos sensacionalistas que prometem milagres ou resultados extraordinários. Além disso, sempre que um vídeo ou anúncio parecer suspeito, é recomendável verificar a fonte oficial da informação. No caso de Frei Gilson, por exemplo, bastaria acessar seu canal no YouTube ou suas redes sociais para confirmar que o conteúdo é falso. Também é importante nunca clicar em links suspeitos ou inserir dados pessoais em sites desconhecidos. Em caso de pagamento via PIX, a transação deve ser feita apenas para pessoas ou empresas conhecidas e de confiança.
As plataformas digitais também têm um papel crucial na luta contra esses golpes. A Meta, por exemplo, afirmou que está testando tecnologias de reconhecimento facial e aplicando regras mais rígidas contra conteúdos fraudulentos. No entanto, enquanto os algoritmos não forem capazes de identificar todas as fraudes em tempo real, cabe aos usuários ficarem atentos e denunciarem conteúdos suspeitos. A Biblioteca de Anúncios da Meta, embora seja uma ferramenta útil para rastrear propagandas pagas, não é capaz de barrar todos os anúncios fraudulentos antes que eles sejam veiculados, o que torna ainda mais importante a vigilância constante dos internautas.
O caso do vídeo falso envolvendo o papa Leão XIV e Frei Gilson também levanta questões sobre a ética no uso da inteligência artificial. Embora a tecnologia possa trazer inúmeros benefícios, como a automação de tarefas e a criação de conteúdos inovadores, seu uso para enganar e lesar pessoas é inaceitável. Governos e empresas têm discutido a implementação de leis mais rígidas para regular o uso de IA, mas enquanto isso não acontece, cabe à sociedade cobrar responsabilidade das plataformas digitais e dos criadores de conteúdo. A disseminação de fake news e golpes não é apenas um problema tecnológico, mas também social, que exige ações coordenadas para ser combatido.
Além de prejuízos financeiros, esses golpes podem causar danos emocionais e psicológicos às vítimas. Muitas pessoas, especialmente aquelas que acreditam em milagres e curas milagrosas, podem se sentir enganadas e desiludidas após cair em uma farsa. Além disso, a manipulação de imagens e áudios de figuras públicas pode prejudicar sua reputação e credibilidade, afetando não apenas suas carreiras, mas também a vida de seus seguidores. Por isso, é fundamental que todos estejam cientes dos riscos e saibam como se proteger desses tipos de fraudes.
Para encerrar, é importante destacar que a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas seu uso deve ser pautado pela ética e pela responsabilidade. Os golpistas estão cada vez mais criativos e sofisticados, mas, com informações e atenção redobradas, é possível evitar cair em suas armadilhas. No caso específico do vídeo envolvendo Frei Gilson e o papa Leão XIV, a farsa foi desmascarada graças ao trabalho de checagem da imprensa e ao uso de ferramentas de detecção de IA. No entanto, enquanto houver pessoas dispostas a lucrar com a ingenuidade alheia, os golpes continuarão a proliferar. Cabe a cada um de nós ser um agente ativo na luta contra a desinformação e as fraudes digitais.