Listen Labs arrecada US$ 69 mi com campanha inovadora de contratação

A startup Listen Labs acaba de conquistar um marco significativo no universo das tecnologias de inteligência artificial ao levantar US$ 69 milhões em sua rodada Series B. A rodada foi liderada pela Ribbit Capital e contou com a participação de investidores como Evantic, Sequoia Capital, Conviction e Pear VC. O valor da empresa agora ultrapassa US$ 500 milhões, e o total arrecadado desde sua fundação chega a impressionantes US$ 100 milhões. O mais impressionante, no entanto, é o ritmo de crescimento: em apenas nove meses desde seu lançamento, a Listen Labs aumentou sua receita anualizada em 15 vezes, atingindo a casa dos oito dígitos, e já realizou mais de 1 milhão de entrevistas conduzidas por IA.

Alfred Wahlforss, fundador e CEO da empresa, revelou em entrevista exclusiva ao VentureBeat que a estratégia por trás desses números está diretamente ligada à obsessão pela experiência do cliente. “Quando você se concentra demais nos clientes, tudo o mais acaba se encaixando”, afirmou Wahlforss. Segundo ele, as equipes que utilizam a plataforma da Listen Labs incorporam a voz do cliente em cada decisão, desde o marketing até o desenvolvimento de produtos. Quando o cliente fica satisfeito, os resultados refletem essa satisfação em todos os níveis da organização. Essa abordagem não apenas melhora a qualidade dos produtos, mas também otimiza processos internos, criando um ciclo virtuoso de inovação e satisfação.

A inovação central da Listen Labs reside em sua capacidade de substituir os métodos tradicionais de pesquisa de mercado, que muitas vezes são lentos, caros e limitados. Wahlforss destacou as falhas dos modelos convencionais: “As pesquisas quantitativas oferecem uma falsa precisão. As pessoas acabam respondendo a perguntas de forma padronizada, sem revelar nuances ou outliers. Além disso, elas nem sempre são honestas em questionários”. Por outro lado, as entrevistas qualitativas, embora profundas, não escalam. “Você pode ter toda a profundidade que quiser, fazer follow-ups e verificar se a pessoa realmente entende do assunto. Mas o problema é que não é possível escalar isso”, explicou. A plataforma da Listen Labs resolve esse dilema ao combinar a profundidade das entrevistas com a escalabilidade proporcionada pela IA.

A metodologia da empresa funciona em quatro etapas bem definidas. Primeiro, os usuários criam um estudo com a ajuda de assistentes de IA. Em seguida, a Listen Labs recruta participantes de sua rede global, composta por 30 milhões de pessoas. Um moderador de IA conduz entrevistas detalhadas, com perguntas de acompanhamento, e os resultados são compilados em relatórios prontos para executivos, incluindo destaques, vídeos e apresentações de slides. O que diferencia a abordagem da Listen é o uso de conversas em vídeo abertas, em vez de formulários de múltipla escolha. Segundo Wahlforss, “em uma pesquisa, você pode adivinhar qual resposta deve dar e selecionar uma das opções oferecidas. Mas em uma resposta aberta, a pessoa tende a ser muito mais honesta”.

Um dos maiores desafios enfrentados pela Listen Labs foi construir uma rede confiável de participantes. Wahlforss revelou que a empresa descobriu um problema generalizado de fraude na indústria de pesquisa de mercado. “Existe uma transação financeira envolvida, o que atrai maus atores”, afirmou. Ele contou que algumas das maiores empresas do mundo, com faturamento na casa dos bilhões, enviaram participantes fraudulentos para a plataforma. A Listen desenvolveu um sistema chamado “guardião de qualidade”, que cruza perfis no LinkedIn com respostas em vídeo para verificar identidades, analisa a consistência das respostas e identifica padrões suspeitos. O resultado é impressionante: os participantes falam três vezes mais e são muito mais honestos ao discutir temas sensíveis, como política e saúde mental.

A velocidade é outro diferencial competitivo da Listen Labs. Enquanto pesquisas tradicionais na Microsoft podiam levar de quatro a seis semanas para gerar insights, a plataforma da startup entrega resultados em questão de dias, ou até horas. Romani Patel, gerente sênior de pesquisa da Microsoft, destacou que “quando os insights chegam tarde, a decisão já foi tomada ou perdemos a oportunidade de influenciá-la”. Com a Listen, a Microsoft conseguiu coletar histórias globais de clientes para comemorar seu 50º aniversário em um único dia, algo que tradicionalmente levaria de seis a oito semanas. Para a Simple Modern, uma empresa de bebidas de Oklahoma, a plataforma permitiu testar um novo conceito de produto em menos de cinco horas, transformando uma dúvida inicial em um plano de lançamento.

A eficácia da plataforma também foi comprovada em casos como o da Chubbies, marca conhecida por seus shorts. A empresa conseguiu aumentar em 24 vezes a participação de jovens em pesquisas, passando de cinco para 120 participantes, superando os desafios de agendamento de grupos focais tradicionais. Lauren Neville, diretora de insights e inovação da Chubbies, explicou que “os jovens têm escola, esportes, jantar e lição de casa. Tive que encontrar uma forma de ouvi-los que se encaixasse em suas rotinas”. Além disso, a IA da Listen detectou problemas nos shorts infantis que passaram despercebidos, como a aspereza do forro, levando a uma redesignação do produto que se tornou um sucesso instantâneo.

A Listen Labs está entrando em um mercado massivo, porém fragmentado. Wahlforss citou uma pesquisa da Andreessen Horowitz que estima o setor de pesquisa de mercado em cerca de US$ 140 bilhões anualmente. Ele acredita que as empresas tradicionais, algumas com faturamento superior a US$ 1 bilhão, são vulneráveis à disrupção. “Estamos substituindo orçamentos existentes”, afirmou. “Os métodos tradicionais são extremamente caros, presos a um paradigma antigo que oferece apenas a escolha entre pesquisas ou entrevistas, e ainda levam meses para serem concluídos”. No entanto, a inovação da Listen não se limita a substituir gastos existentes; ela também cria nova demanda. Wahlforss mencionou o paradoxo de Jevons, um princípio econômico segundo o qual, quando um recurso se torna mais eficiente, seu uso aumenta em vez de diminuir. “Quando algo fica mais barato, você não precisa menos dele; você quer mais”, explicou. “Há uma demanda infinita por compreensão do cliente. Os pesquisadores podem realizar pesquisas em uma ordem de magnitude maior, e outras pessoas que não eram pesquisadoras agora podem fazer isso como parte de seu trabalho”.

A origem da Listen Labs remonta a um aplicativo de consumo que Wahlforss e seu cofundador desenvolveram após se conhecerem em Harvard. “Criamos um aplicativo que atingiu 20 mil downloads em um único dia”, contou Wahlforss. “Tínhamos todos esses usuários, e pensamos: como podemos conhecê-los melhor? Foi assim que desenvolvemos um protótipo do que é a Listen hoje”. A equipe fundadora traz um histórico incomum: o cofundador de Wahlforss foi campeão nacional de programação competitiva na Alemanha e trabalhou no Tesla Autopilot. A empresa afirma que 30% de sua equipe de engenharia são medalhistas da Olimpíada Internacional de Informática, a mesma competição que formou os fundadores da Cognition, startup de IA. A campanha publicitária com o painel em Berghain, que parecia não fazer sentido à primeira vista, gerou cerca de 5 milhões de visualizações nas redes sociais e refletiu a intensidade da guerra por talentos no Vale do Silício.

A equipe da Listen Labs cresceu de cinco para 40 funcionários em 2024 e planeja chegar a 150 até o final deste ano. A empresa contrata engenheiros não apenas para funções técnicas, mas também para áreas como marketing, crescimento e operações, apostando que, na era da IA, a fluência técnica é essencial em todos os setores. Wahlforss delineou um roadmap ambicioso que inclui recursos mais especulativos. A empresa está desenvolvendo a capacidade de simular clientes, permitindo que as entrevistas realizadas sejam extrapoladas para criar usuários sintéticos ou vozes simuladas. Além disso, a Listen Labs busca possibilitar ações automatizadas com base nos achados da pesquisa, como ajustar códigos ou oferecer descontos para reter clientes. Wahlforss reconheceu as implicações éticas dessa abordagem, mas garantiu que haverá “guarda-rails consideráveis para garantir que as empresas sempre estejam no controle”.

A empresa já demonstra cuidado extremo com dados sensíveis. Wahlforss afirmou que “não treinamos nossos modelos com nenhum dos dados coletados”. Além disso, a plataforma automaticamente remove informações pessoais identificáveis e pode detectar informações confidenciais que possam ser acidentalmente mencionadas, como dados financeiros não públicos. Uma das implicações mais provocativas do modelo da Listen Labs é como ela pode redefinir o desenvolvimento de produtos. Wahlforss descreveu o caso de uma startup australiana que adotou um ciclo contínuo de feedback. “Eles estão baseados na Austrália, então codificam durante o dia e, à noite, lançam estudos da Listen com um público americano”, explicou. “A plataforma valida o que eles construíram durante o dia, e o feedback é inserido diretamente em ferramentas de codificação como o Claude Code, permitindo iterações rápidas”. Essa abordagem estende o famoso ditado do Y Combinator — “escreva código, fale com usuários” — para um ciclo automatizado. “Escrever código agora pode ser automatizado, e eu acredito que falar com usuários também será. Teremos um loop infinito onde poderemos desenvolver produtos verdadeiramente incríveis, quase de forma autônoma”.

O sucesso dessa visão depende de vários fatores além do controle da Listen Labs, como a melhoria contínua dos modelos de IA, a disposição das empresas em confiar em pesquisas automatizadas e se a velocidade realmente se correlaciona com produtos melhores. Wahlforss citou uma estatística preocupante: um estudo do MIT de 2024 revelou que 95% dos pilotos de IA não avançam para produção. Por isso, ele enfatiza constantemente a qualidade sobre demonstrações superficiais. “Preciso sempre reforçar que a qualidade deve estar presente e os detalhes precisam estar corretos”, afirmou. No entanto, o crescimento da empresa sugere que há um apetite real por essa inovação. Romani Patel, da Microsoft, disse que a Listen Labs “removeu a chatice da pesquisa e trouxe diversão e alegria de volta ao meu trabalho”. Na Chubbies, agora todos na empresa têm acesso à plataforma, e a Sling Money, uma startup de pagamentos com stablecoin, consegue criar uma pesquisa em dez minutos e receber resultados no mesmo dia. “É uma virada de jogo total”, declarou Ali Romero, gerente de marketing da Sling Money.

Wahlforss tem uma perspectiva diferente sobre a tensão entre velocidade e rigor. Em um setor construído sobre cautela metodológica, sua frase favorita, inspirada no ex-CEO do GitHub e investidor Nat Friedman, resume sua filosofia: “Devagar é falso”. É uma afirmação ousada, mas a Listen Labs está apostando que, na era da IA, as empresas que ouvem mais rápido serão as que vencerão. A única dúvida que permanece é se os clientes realmente responderão.