Stripe e Airwallex travam batalha após Stripe recusar compra milionária

Em 2018, Jack Zhang, então com 34 anos e três anos e meio à frente da Airwallex, uma startup de pagamentos internacionais, sentou-se frente a frente com Michael Moritz, um dos investidores mais influentes do Vale do Silício. A proposta era irrecusável: a Stripe, gigante dos pagamentos digitais, oferecia comprar a Airwallex por US$ 1,2 bilhão — uma valorização de 600 vezes sua receita anualizada na época, que mal ultrapassava US$ 2 milhões. Zhang, que já havia fundado cerca de dez negócios antes, desde uma revista aos 14 anos até uma rede de franquias de hambúrgueres, foi confrontado com a oportunidade de vender sua empresa por um valor estratosférico. Moritz argumentou que Patrick Collison, fundador da Stripe, era um empreendedor de uma geração única, e que a combinação das empresas criaria algo extraordinário. Zhang ouviu a proposta, andou por duas semanas pelas ruas de São Francisco, dividido entre a empolgação e a dúvida, até tomar uma decisão. Ele disse sim — mas, ao voltar para Melbourne, percebeu que não conseguia tirar da cabeça a visão que tinha para a Airwallex: construir uma infraestrutura financeira global que permitisse a qualquer empresa operar no exterior como se fosse local.

A decisão de não vender a Airwallex há sete anos mostrou-se cada vez mais sábia. Hoje, a empresa ostenta mais de US$ 1,3 bilhão em receita anualizada, com crescimento de 85% ao ano, processando quase US$ 300 bilhões em volume de transações anuais. A trajetória, no entanto, não foi fácil. Zhang e sua equipe enfrentaram obstáculos regulatórios imensos, desde a obtenção de licenças bancárias em mercados como Japão — onde o processo levou sete anos — até a reconstrução de empresas-fantasma em mercados emergentes para adquirir permissões. Cada licença, cada integração bancária e cada via de pagamento local foi construída com um propósito: criar barreiras cada vez maiores para a concorrência. “Levou seis anos e meio para chegarmos a US$ 100 milhões em receita recorrente anual”, contou Zhang em entrevista recente. “Mas, após isso, em apenas três anos, alcançamos US$ 1 bilhão.”

A Airwallex não se limita a ser mais uma plataforma de pagamentos. Enquanto gigantes como a Stripe dependem de bancos correspondentes e sistemas como o SWIFT, que podem congelar transações por semanas devido a sanções internacionais, a Airwallex construiu sua própria rede global. Em 50 mercados, a empresa possui quase 90 licenças financeiras — número que, segundo Zhang, a Stripe não iguala nem de longe. No Japão, por exemplo, enquanto empresas como Stripe e Square só podem processar pagamentos e transferir imediatamente o dinheiro para as contas dos comerciantes, a Airwallex, com sua licença de operadora de transferências, pode manter os fundos dentro de sua plataforma. Isso permite que clientes emitam contas bancárias, cartões e façam pagamentos sem que o dinheiro saia do ecossistema da Airwallex, reduzindo custos e aumentando a eficiência.

Os benefícios econômicos do modelo da Airwallex são substanciais. Um comerciante nos EUA que recebe pagamentos em dólares australianos, por exemplo, evita as taxas de conversão de 2% a 3% cobradas por processadores como a Stripe. Além disso, a empresa pode usar os saldos locais para pagar fornecedores, folha de pagamento e despesas de marketing, tudo a taxas interbancárias. “Você não opera mais como uma empresa americana”, explicou Zhang. “Opera como uma empresa com entidades globais, sem precisar abrir fisicamente escritórios em cada país.” Essa abordagem não apenas reduz custos, mas também oferece uma flexibilidade que os concorrentes não conseguem igualar.

Zhang cresceu em Qingdao, uma cidade portuária no nordeste da China, e mudou-se para Melbourne aos 15 anos sozinho, sem falar inglês direito, vivendo com uma família anfitriã. A situação financeira de sua família desmoronou, e ele precisou trabalhar em quatro empregos para pagar a faculdade de ciência da computação: garçom, lavador de pratos, operador de posto de gasolina em turnos da madrugada e, nos feriados escolares, colhendo limões em uma fazenda — trabalho que ele considera o mais difícil que já teve. Depois de se formar, trabalhou anos escrevendo códigos de negociação em bancos de investimento, mas nunca se sentiu plenamente realizado. Foi em um café de Melbourne que a ideia da Airwallex nasceu. Ao tentar pagar fornecedores de café no Brasil, Indonésia e Guatemala, Zhang e seu cofundador Max Li perceberam como os pagamentos desapareciam em sistemas bancários correspondentes, bloqueados por bancos intermediários americanos que aplicavam sanções da OFAC. “Isso me fez questionar como os sistemas de bancos correspondentes e o SWIFT funcionam”, disse Zhang. “E como poderíamos construir nossa própria rede global de movimentação de dinheiro.”

A estratégia da Airwallex sempre foi construir uma infraestrutura própria, em vez de depender de terceiros. Zhang chama isso de “caminho da máxima resistência”: cada licença, cada integração e cada via de pagamento é uma camada adicional que torna a empresa mais difícil de ser copiada. “Construir em cima da infraestrutura de outra empresa simplesmente não é escalável”, afirmou. Ele argumenta que, se algo der errado, a Airwallex tem acesso aos dados necessários para solucionar problemas e pode lançar novos produtos facilmente sobre sua própria pilha tecnológica. Em contraste, empresas que dependem de terceiros ficam limitadas às restrições e limitações da infraestrutura alheia. Essa abordagem, embora demorada, está começando a dar frutos. Enquanto a Stripe foca no mercado americano, atraindo desenvolvedores e startups com sua simplicidade de integração, a Airwallex tem conquistado clientes no mundo todo, especialmente no Japão, Austrália e Sudeste Asiático, onde atende diretamente aos CFOs e equipes de tesouraria.

No entanto, a Airwallex enfrenta desafios significativos para competir diretamente com a Stripe. A marca da Stripe é quase mitológica no Vale do Silício, com ações privadas que transformaram inúmeros funcionários em milionários. Além disso, a Stripe já tem uma presença consolidada no mercado de desenvolvedores, sendo a escolha padrão para startups americanas. Zhang admite que a Airwallex ainda precisa se tornar a primeira opção quando um fundador pensa em pagamentos globais. “Nossa marca ainda não está lá”, disse ele. “Esse é um tipo de competição mais difícil de vencer.” Para mudar isso, a empresa está investindo em produtos que vão além dos pagamentos, como gestão de gastos e soluções de câmbio, buscando se tornar uma plataforma completa de finanças corporativas.

Os investidores da Airwallex incluem sequoia — que, embora tenha proposto a venda em 2018, mantém participação majoritária — e o Greenoaks Capital, que também tem ações na Stripe. Zhang minimiza qualquer desconforto em relação a essa sobreposição acionária, argumentando que os investidores estão apostando em um mercado enorme. A Stripe, avaliada em US$ 159 bilhões em fevereiro de 2026, processou US$ 1,9 trilhão em volume de pagamento no ano anterior. A Airwallex, avaliada em US$ 8 bilhões, tem um volume de transações cerca de seis vezes menor, mas cresce a 85% ao ano. Zhang projeta que, em um ano, a empresa atingirá US$ 2 bilhões em receita, reduzindo a lacuna de valuation. Se o mercado reconhecer esse crescimento, a diferença de valorização pode se estreitar consideravelmente.

Ainda não está claro se o mercado vai valorizar a Airwallex no mesmo nível da Stripe. Zhang estima que a empresa só deve fazer um IPO em três a cinco anos, tempo suficiente para solidificar sua posição global. Enquanto isso, os objetivos são ambiciosos: atingir 1 milhão de clientes até 2030, US$ 20 bilhões em receita anual e aumentar a receita média por cliente de US$ 12 mil para US$ 20 mil. Além disso, a empresa está lançando produtos de finanças autônomas com IA, que não apenas analisam dados, mas executam transações automaticamente. Zhang acredita que, após uma década coletando dados financeiros de empresas globais, a Airwallex tem uma vantagem competitiva única. “Ninguém consegue replicar isso da noite para o dia”, afirmou. O desafio agora é transformar essa vantagem em participação de mercado.

Por enquanto, a competição entre a Stripe e a Airwallex parece estar se desenrolando em territórios distintos. Zhang e Patrick Collison, fundador da Stripe, não têm uma relação próxima, mas foram cordiais durante as negociações de venda em 2018. Em um evento recente do Greenoaks Capital, os dois estiveram presentes, mas não conversaram. Enquanto a Stripe avança em mercados internacionais e a Airwallex faz sua primeira investida séria nos EUA, o confronto está apenas começando. Zhang, que já recusou uma oferta bilionária no passado, está determinado a provar que construir uma infraestrutura própria — e não vender — foi a decisão certa. “Eu não construí a Airwallex para vendê-la”, disse ele. “Construí para criar algo que durasse.”

A batalha entre as duas empresas é mais do que uma disputa por mercado: é uma disputa de filosofia. A Stripe, com sua simplicidade e foco em desenvolvedores, representa a mentalidade do Vale do Silício de “mover rápido e quebrar coisas”. A Airwallex, com sua abordagem metódica e investimento pesado em infraestrutura, representa uma escola diferente: a de construir para durar. Enquanto a Stripe cresce rapidamente, aproveitando sua marca forte e ecossistema de desenvolvedores, a Airwallex está apostando em algo mais profundo: a construção de uma infraestrutura financeira global que não depende de terceiros. Se Zhang estiver certo, o tempo está do lado da Airwallex. Mas, para isso, a empresa precisa convencer o mercado de que sua abordagem é a vencedora.

Nos próximos anos, veremos se a Airwallex conseguirá transpor a lacuna de marca e convencer desenvolvedores e fundadores a escolherem sua plataforma em vez da Stripe. Enquanto isso, Zhang mantém o foco em seus objetivos de longo prazo: escalar a empresa para milhões de clientes, bilhões em receita e produtos que automatizam não apenas pagamentos, mas toda a gestão financeira de uma empresa. Se a Airwallex conseguir executar sua visão, ela não apenas competirá com a Stripe — poderá redefinir o que significa ser uma plataforma global de pagamentos e finanças.

A história de Jack Zhang é a de um empreendedor que recusou um bilhão de dólares para construir algo maior. Agora, ele precisa provar que sua aposta foi a certa. Com uma infraestrutura robusta, um modelo escalável e uma visão clara de longo prazo, a Airwallex tem todas as condições para se tornar uma das principais plataformas de pagamentos do mundo. Resta saber se o mercado e os clientes vão reconhecer isso a tempo. Enquanto isso, a batalha continua, e o tabuleiro está montado para um confronto épico entre duas visões de como o futuro das finanças deve ser construído.

Para Zhang, a decisão de não vender em 2018 não foi apenas sobre dinheiro. Foi sobre acreditar em uma visão: a de que a Airwallex poderia criar algo que ninguém mais havia feito. Sete anos depois, essa visão está cada vez mais próxima de se tornar realidade. Resta saber se, no final, será suficiente para desafiar o império da Stripe — ou se a empresa precisará encontrar seu próprio caminho, independentemente do resultado dessa batalha.

A competição entre as duas empresas também levanta questões importantes sobre o futuro dos pagamentos globais. Com a crescente digitalização das transações e a expansão das fronteiras comerciais, a demanda por soluções de pagamento eficientes e sem fronteiras só tende a aumentar. Nesse cenário, tanto a Stripe quanto a Airwallex têm papéis a desempenhar, mas suas abordagens são radicalmente distintas. Enquanto a Stripe aposta em simplicidade e agilidade, a Airwallex investe em robustez e controle total da infraestrutura. O tempo dirá qual modelo prevalecerá — ou se ambas poderão coexistir, cada uma atendendo a um nicho específico do mercado.

Independentemente do resultado, uma coisa é certa: a batalha entre Stripe e Airwallex está apenas começando. E, para Jack Zhang, o melhor ainda está por vir. Com uma equipe talentosa, uma infraestrutura sólida e uma visão clara, ele está determinado a construir uma empresa que não apenas concorra com os gigantes, mas que redefina o setor. Se a Airwallex conseguir isso, será mais um exemplo de como empreendedores visionários podem desafiar o status quo e criar algo verdadeiramente transformador.