Indústrias mais expostas à IA têm ganhos de produtividade e de emprego

Estudos recentes revelam que setores mais impactados pela inteligência artificial (IA) não apenas registram aumentos de produtividade, mas também expansão de vagas e crescimento salarial. Enquanto relatórios pessimistas, como o divulgado pelos senadores democratas dos EUA em outubro de 2025, previam a destruição de milhões de empregos americanos por conta da IA, outras análises, como a da consultoria McKinsey, destacam que os impactos negativos podem ser minimizados com a requalificação profissional. No entanto, grande parte dessas previsões se baseia em projeções teóricas ou pesquisas simplificadas, o que dificulta a compreensão real dos efeitos da tecnologia na economia.

Diferente das abordagens genéricas, pesquisas acadêmicas com dados concretos mostram um cenário mais otimista. Como economista especializado em trabalho, venho analisando há anos como a tecnologia e as mudanças organizacionais afetam a produtividade e o bem-estar dos trabalhadores. Ao estudar os impactos da IA generativa entre 2017 e 2024, com dados de quase todos os empregadores americanos, foi possível observar resultados surpreendentes. Em um artigo recente, desenvolvido em parceria com o economista Andrew Johnston, medimos o nível de exposição à IA em diferentes indústrias, utilizando informações sobre tarefas ocupacionais e a composição da força de trabalho antes da pandemia.

A metodologia consistiu em avaliar quais setores tinham maior concentração de funções relacionadas a processamento de linguagem, programação e análise de dados – áreas mais suscetíveis à automação por IA. Em contrapartida, indústrias com predominância de profissões manuais, como encanadores e eletricistas, foram classificadas como de baixa exposição. Ao comparar a variação na exposição ocupacional com indicadores de mercado de trabalho e PIB entre 2017 e 2024, os resultados apontaram para um cenário positivo para os setores mais expostos à tecnologia.

Para exemplificar, a diferença entre uma profissão de alta exposição à IA, como um gerente de relações públicas – que lida com redação, análise de sentimentos e síntese de informações –, e uma de baixa exposição, como um paramédico, que depende de habilidades físicas e respostas emergenciais, ajuda a dimensionar o impacto. Enquanto o primeiro grupo se beneficia de ferramentas de IA para otimizar tarefas repetitivas, o segundo mantém uma demanda estável por habilidades humanas insubstituíveis. Essa comparação foi fundamental para entender se a exposição à IA realmente altera a trajetória das indústrias.

Os dados analisados permitiram responder a duas questões centrais: após o lançamento público do ChatGPT no final de 2022, os estados e setores mais expostos à IA generativa apresentaram maior produtividade? E como isso afetou os trabalhadores nesses segmentos? As respostas foram claras: as indústrias com maior integração de IA não só aumentaram sua produtividade, como também criaram mais empregos e ofereceram salários mais altos. Isso contraria a narrativa de que a automação inevitavelmente leva à redução de postos de trabalho.

Um exemplo concreto é o setor de serviços financeiros, que tradicionalmente depende de análise de dados e processamento de linguagem. Com a adoção de ferramentas de IA, as empresas desse ramo conseguiram automatizar tarefas burocráticas, permitindo que seus funcionários se concentrassem em atividades estratégicas, como tomada de decisão e atendimento ao cliente. Como resultado, houve um crescimento de 12% na produtividade entre 2022 e 2024, além de um aumento de 8% nos salários médios da categoria.

Outro setor que se destacou foi o de marketing digital, onde a IA tem sido usada para personalizar campanhas, analisar métricas e gerar conteúdo. Empresas que investiram nessa tecnologia não apenas reduziram custos operacionais, como também expandiram suas equipes para desenvolver novas estratégias. Segundo o estudo, a demanda por profissionais de marketing com habilidades em IA cresceu 25% no período, enquanto os salários subiram 15%. Esses casos demonstram que a IA, quando bem implementada, pode ser um impulsionador de inovação e crescimento econômico.

Contudo, é importante ressaltar que os benefícios da IA não são uniformes. Setores com baixa exposição à tecnologia, como construção civil e manufatura tradicional, ainda enfrentam desafios de competitividade. Nesses casos, a falta de adoção de ferramentas avançadas pode limitar a produtividade e, consequentemente, o crescimento salarial. Por outro lado, indústrias que conseguem integrar a IA de forma estratégica não apenas se tornam mais eficientes, como também atraem talentos e investimentos.

Os resultados da pesquisa reforçam a ideia de que a IA não é uma ameaça inevitável ao emprego, mas sim uma ferramenta que pode ser usada para impulsionar a economia. A chave para maximizar seus benefícios está na requalificação da mão de obra e no investimento em setores com potencial de inovação. Enquanto alguns cargos podem desaparecer, novas oportunidades surgem, exigindo que trabalhadores e empresas se adaptem a essa nova realidade tecnológica.